Finalmente vi Drag me as a queen

Desde que estreou Drag me as a queen, eu estava extremamente curiosa para assistir, porque é um programa que trata da arte drag e de empoderamento feminino, basicamente meus assuntos favoritos.

Por levantar bandeiras importantes, eu imaginei que ele poderia sofrer duras críticas das lentes problematizadoras e, antes mesmo de assistir, eu já estava preparada para defender quem quer que fosse. Já estava em posição de textão, juro. Porque eu sei o quanto a arte drag é questionada pela sociedade. E por ter escrito um livro que aborda o tema, eu também já me deparei com perguntas e comentários meio ácidos, mesmo quando a nossa intenção é a melhor possível. Mas, as opiniões que encontrei sobre o programa são unanimemente positivas, o que só fez aumentar gradativamente minha vontade.

Estive na festa de estreia de Drag me e confesso que chorei assistindo ao primeiro episódio. E eu nunca choro em festa! Muito menos quando estou com cílios postiços. Mas ali, ao lado de dezenas de amigos que eu fiz durante o ano, refletindo sobre o tanto que a arte drag significa pra mim e o quanto me transformou, foi difícil me conter quando Ikaro disse “drag queen nada mais é do que uma homenagem singela e pequena nessa complexidade que é a mulher”. É exatamente o que, de início, me atraiu dentro da vastidão dessa manifestação artística: a valorização do feminino. Eu corri pra abraçar minhas amigas drags enquanto Ikaro dublava Hallelujah no palco. Foi golpe baixo! Fiquei emocionada demais. Cheguei em casa querendo ver todos os outros episódios imediatamente.

Esta semana, depois de muito tormento por não conseguir acompanhar o horário de exibição da TV, eu finalmente realizei meu desejo e assisti a mais três episódios (gostaria que fossem mais trinta? Gostaria). E agora sim, posso falar melhor, mas não menos emotiva, sobre o que eu achei. Primeiro: acredito que qualquer mulher pode se identificar com as mulheres que participam da transformação que o programa propõe. Elas têm coragem de expor suas histórias e inseguranças para as câmeras, o que automaticamente nos causa empatia e as tornam mais próximas de nós. Eu fiquei ansiosa, animada e muito curiosa para o momento em que elas se olham no espelho e veem exteriorizada toda a potência que têm dentro delas. Pra mim, essa é a parte mais legal! A alegria das participantes contagia quem assiste e, claro, rompe vários tabus em torno da feminilidade e da arte drag. Isso também se evidencia pela diferença de estilos entre Ikaro, Rita e Penelopy – e agora me deu vontade de falar um pouco sobre cada uma.

Eu já conhecia as três, mas troquei pouquíssimas palavras com elas nas vezes em que as vi. Mesmo assim, foi o suficiente para que eu tivesse memórias marcantes e afetuosas. Depois de ter assistido a diversas apresentações, falei com Ikaro pela primeira vez após um espetáculo que ele participou (Cabaré Show Drag, que, aliás, volta em janeiro e eu super recomendo). Lembro-me da sensação de amabilidade, de abraço sincero, atenção, gratidão e todos os sentimentos nobres que um ser humano pode exalar. Ikaro tem muita força no palco, sempre existe alguma mensagem por trás do que ele está fazendo, e acredito que sua áurea serena e seu senso de elegância sejam o que mais marca quem o assiste. É nítido o respeito que ele tem pela arte, pelo feminino e pelo público. E isso também transparece no programa.

A Rita estava na primeira festa drag que eu fui. Ela era apresentadora do evento e, naquela noite, apareceu no palco vestida como Baby Jane. Lembro que salvei no computador uma foto dela com esse figurino e usei como referência enquanto escrevia meu livro. Aliás, eu gosto de segui-la no instagram justamente pelas recomendações de livros e poemas que ela posta. Vi alguns dos seus vídeos no youtube, falei com ela uma vez numa Festa Katwalk, mas ainda não tinha nenhuma opinião formada sobre ela até ver o programa. E confesso que me apaixonei! Por diversas vezes eu me peguei dando risada de algum comentário ácido, muito bem colocado. Ela tem um humor refinado, inteligente, cheio de referências literárias, algo que eu raramente vejo por aí. Gargalhei quando, em um dos episódios, ela nomeou os passos da coreografia como “a dialética, o Proust, o Dostoiévski, e o vazio do niilismo”. GENIAL! Rita brinca muito bem com a câmera e com as colegas. Tem um carisma cênico quase cínico. Sem falar no estilo pin-up dos anos 50, polido, clássico e gracioso. Droga, tô muito apaixonada!

Não lembro exatamente quando foi a primeira vez que avistei a Penelopy, acredito que tenha sido numa Festa Cover Girl, mas nunca falei com ela pessoalmente. Entretanto, a memória mais incrível que tenho dela foi quando a vi de Princesa Leia na Noite de Hollywood da Blue Space. Eu vibrei demais! Achei sua apresentação absolutamente incrível. Não há dúvidas de que ela arrasa no palco, dança muito e tem uma presença marcante que causa impacto e comoção. Além do dialeto JEAN, percebo que ela traz um lado pop ao programa, cores fortes, cabelões e a extravagância das disco divas. Não pelo fato de ela se parecer fisicamente com a Lady Gaga, mas porque são nítidas suas dezenas de referências de popstars. Sempre que a vejo penso que teríamos muito assunto, pois também sou louca por cultura pop e me identifico bastante com seu estilo.

O que mais me agrada na combinação das três é a cumplicidade cênica e a preocupação com as participantes. Diferente de vários programas de transformação, a proposta não é ensinar como se vestir “adequadamente” ou se maquiar “de acordo com ocasiões especificas”, mas sim ajudar as mulheres a se libertarem dos padrões sociais, encontrarem o próprio estilo e a força que possuem dentro delas. Além disso, todas as apresentadoras têm o mesmo destaque. Por mais que em certos episódios, uma se sobressaia mais do que a outra, no cenário geral, a relevância é equilibrada. E o que mais me surpreende é a rapidez que elas têm pra criar nomes de drag! Queria que minha criatividade fosse aflorada assim. Tenho certeza de que quem assiste ao programa sente muita vontade de participar ou de, pelo menos, se aventurar na maquiagem e no guarda-roupa de forma diferente do habitual, e é uma delícia perceber o efeito positivo que o entretenimento pode causar.

No fim das contas, eu só quero que o programa tenha mais quarenta temporadas, que drag ganhe cada dia mais espaço e visibilidade, que mulheres se sintam cada vez mais empoderadas, e que possamos caminhar todos juntos pelas nossas conquistas. A todos os envolvidos no Drag me as a queen: vocês estão de parabéns!

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