Alaska

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Eu não ia escrever nenhum texto sobre a Alaska, mas acabei de assistir ao vídeo da noite em que ela perdeu a coroa pra Jinkx Monsoon e o coração bateu muito forte. Cena: Alaska sobe ao palco. Bêbada. Vestida como um saco de lixo. A maquiagem borrada de tanto chorar. Escolhe cantar “Don’t cry out loud” e “The winner takes it all”. Ao final da apresentação, ela se joga no chão e é arrastada como um amontoado de lixo recolhido por lixeiros. Alaska não sabe perder. Não sabe fingir que está bem com a própria derrota. E dá pra sentir sua agonia e decepção consigo mesma enquanto ela se expõe ao vexame. Alaska, ali, se torna minha heroína.

ad3eab966662bff61eef3e8f4d651eaaEu não torci para ela quando assisti sua temporada. Eu já tinha ouvido falar de seu nome inúmeras vezes, e por ela ser tão famosa, eu depositei expectativas antes de conhecer sua história. Logo, me frustrei. A vencedora da temporada anterior foi Sharon Needles, namorada da Alaska. E se a Sharon era tão foda, e Alaska era mais famosa, eu esperava que Alaska fosse triplamente mais incrível que a Sharon. Coisa que a própria tentou ser. Ela não se cobrou pra ser a melhor versão de si mesma, e isso eu percebi quando revi a temporada, ela se cobrou pra ser tão boa quanto a Sharon. Ela caiu na nossa eterna armadilha de nos comparar a quem amamos e admiramos. Nossa eterna luta pra provar que merecemos tanto quanto o outro. Aquela era Alaska Thunderfuck: uma pessoa doce repleta de amarguras e cobranças consigo mesma, brigando pela coroa do seu programa favorito. Porque não bastava ser participante de Drag Race, ela também era fã número um. Inscreveu-se para todas as temporadas, e ao entrar justamente após a namorada ter vencido, teve seu mérito automaticamente arrancado. “Alaska só tá lá, porque a Sharon a colocou lá”.

dcaf0a1cc60308eb5dbdabb325237f02Eu não achava que Alaska merecia ganhar. RuPaul também não achou. Então ela perdeu. Então ela se apresentou vestida como saco de lixo. Deve ter sido a pior noite da vida dela. Ou uma das. Porque um tempo depois, Alaska perdeu também o relacionamento com Sharon, coisa que ambas descreviam como a mais importante de suas vidas. Diz-se que era um relacionamento abusivo. As duas tinham problemas com bebida. Diz-se que houve traição, que houve agressão física. E eu assisti a todos os vídeos das duas juntas (porque sou obcecada pelos amores alheios), e eu sofri ao perceber que o sentimento entre elas era enorme, mas extremamente tóxico. Sharon era uma nova ganhadora que durante toda a vida sentiu-se perdedora. Seu recente sucesso e a inédita sensação de ser querida a tornaram um tanto imponente. Sharon precisava que tudo fosse sobre ela. Não tinha espaço para Alaska, e o fato de esta ter perdido a competição só “provava” que não era merecedora da mesma atenção.

7b0e3f4e0a00aaa49fa7ff1bba091cf1As disputas de ego cresceram e o rompimento foi inevitável. Então, distante de Sharon, Alaska pôde focar em sua saúde física e psíquica. Parou de beber. Compôs canções sobre o término e canções pop cativantes. Encontrou sua própria identidade e aprendeu a ser ela mesma. A nova, criativa e querida Alaska finalmente se mostrou por completo. Seu sucesso transcendeu Drag Race, mas ainda tinha algo faltando. A coroa.

1f01b130bb1456a6337598a88fbca769Três anos depois de ter encarado a derrota mais amarga que já experimentou, ela estava pronta para voltar ao jogo, e logo no primeiro episódio de Drag Race – All Stars, surge uma Alaska completamente diferente, segura de si, determinada e focada em vencer. Ainda em trajes de saco de lixo, como se fosse uma sequência de sua trajetória. E então ela jogou, e jogou forte! E novamente, eu não torci a seu favor. Ela ganhava todos os desafios, ela eliminava as queens mais queridas do público, isso era irritante! E em seu único deslize, a antiga Alaska descompensada surgiu diante das câmeras novamente, implorando pra não ser eliminada, oferecendo dinheiro para permanecer na disputa. Dá aflição de assistir. Alaska quis aquela coroa com a mesma força de um ginasta olímpico que passa a vida toda treinando por uma medalha. E ali, sóbria, focada, sendo ela mesma, conseguiu. Venceu o programa! Ganhou a coroa, o dinheiro, e o ódio dos mais fanáticos que a atacariam nas redes sociais até que ela se tornasse a rainha das cobras. E mesmo essa situação de ódio gratuito Alaska soube reverter a seu favor. Se foi “cotada” ou não, ela teve seu mérito finalmente reconhecido.

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“Eu sou aquela que pega lixo e transforma em luxo”, ela diz. Mais do que isso, Alaska é um excelente exemplo de persistência e sobrevivência. E é por isso que ela tem sido a minha maior heroína nos últimos tempos. Alguém que sofreu pra encontrar a si mesma, que batalhou pra aprender a se amar de verdade, que teve coragem de abandonar um grande amor em prol de sua própria saúde e carreira. Alguém que lutou o quanto pôde e com todas as armas que tinha para conquistar o que para ela era o mais importante. Alguém que venceu e que continua vencendo todos os dias sem perder a doçura, a graça e a paixão pelo que faz.

Alaska provou que eu estava errada por não ter acreditado nela desde o início. E é isso que eu gostaria de, um dia, provar ao mundo também. Que eu valho a pena. E claro, quero ter a chance de encarar minhas derrotas vestida de saco de lixo, com a cara toda borrada de tanto chorar, cantando “The winner takes it all” para uma multidão.

ALAKSA

Alaska ❤

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