Dezoito homens

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Desintegrar-se: quando lhe arrancam a integridade e de ti não sobra nada.

Tem dias que a gente não aguenta mais ser quem é. Hoje é um desses dias. É um dia que eu não aguento mais ser mulher. É um dia em que dezoito homens aprovaram uma PEC que obriga a mulher a ter um filho fruto de estupro. Dezoito homens gritam orgulhosos que são a favor da vida, sem ter a menor capacidade cognitiva e intelectual para perceberem que são a favor da morte. São “os homens que não amavam as mulheres” e que, com o poder em mãos, determinam que a mulher seja uma máquina de sexo pronta para procriar o filho de qualquer outro homem que quiser engravidá-la sem o consenso dela. São homens que me despertam ódio, o pior dos sentimentos humanos. São homens que nunca entenderão a dor de existir num corpo feminino. O medo. A sequência de traumas. A luta. A angústia. O castigo por simplesmente ter nascido.

Hoje eu não queria ser mulher. Não queria sentir essa impotência que estou sentindo, como se meu próprio corpo se desintegrasse de mim e ocupasse um espaço que minha alma não ocupa. Como se eu pudesse tocar meu rosto, mas ele não fosse meu. Como se nenhum pedaço de mim me pertencesse. Hoje eu pertenço a esses dezoito homens e ao que eles quiserem fazer de mim. Hoje eu sou fruto dessa pátria mãe gentil que pariu filhos que não queria e que agora assiste às crias matarem umas as outras.

O “bandido bom que é bandido morto” é exatamente o amanhã da vida que hoje está sendo defendida. A vida que não terá direito a dignidade, que nascerá do ventre pobre de uma mãe assustada e que, no futuro, encontrará esses mesmos dezoito homens dizendo que ele nunca deveria ter nascido. Salva-se agora, enquanto ainda nem é vida, para assassinar depois, quando já não se consegue mais salvar.

Tem dias que a gente cansa de ser quem é. Mulher.

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