Tribunal online e a agressão às mulheres

Eu não ia escrever nada e esperar o caso abafar por respeito à Maria que merece relevância nos jornais por seus trabalhos e não por um assunto desagradável como esse. Mas é que não deu. Não deu, porque não dá mais pra ficar quieta. Então os valores se inverteram na minha cabeça e eu achei que justamente por respeito à Maria, eu deveria escrever alguma coisa.

Cena 1: Maria foi agredida ontem por um segurança de um bar em Madri, porque estava fazendo uma live de instagram em frente ao estabelecimento que impediu sua entrada e da diretora Lais Bodanzky por não estarem de salto.

Queridos membros do júri de internet, o que podemos concluir dessa cena? Duas mulheres dentro de um cenário machista que insiste em dizer como elas devem se vestir, ignorando totalmente o fato de elas estarem ali por um trabalho que fizeram.  Uma mulher defendendo a outra e, indignada, gravando a si mesma para manifestar sua revolta. Um homem que a agrediu fisicamente a impedindo de filmar.

Fato: uma mulher foi agredida por estar expressando sua opinião. Pergunta: por que, em algum momento, o júri considerou que a vítima fosse a culpada de sua própria agressão?

Ah sim, não sei porque eu ainda me espanto com quem defende que a culpa é sempre da mulher. Eu devo ser muito burra mesmo por não entender que a burrice dos outros é epidêmica e, muitas vezes, acadêmica. Eu devo ter ainda um resquício de crença social, alguma coisa que me impede de desistir de vez. Será que tem cura essa minha distorcida visão da realidade? Porque a deles claramente não tem, então a minha tem que ter. Ah, claro! Louça na pia, esqueci de lavar. É só isso, não é? É só lavar a louça que passa. Tão simples e eu nem tinha percebido. E eu aqui achando que a cura pra ignorância é leitura, uau, como fui ingênua.

A Maria tem um projeto literário, sabia? A Maria tem um livro de crônicas. Ela tem uma coluna quinzenal no jornal. Ela incentiva o conhecimento e a cultura acessível. Ela incentiva as pessoas a saírem de suas bolhas, e ela levanta do sofá na hora de lutar pelos direitos das mulheres. Ela não merecia passar por essa situação, porque NENHUMA MULHER MERECE. Ela não merecia estar sendo julgada por amebas de internet, porque NENHUM SER HUMANO MERECE. E eu não merecia estar nervosa aqui num domingo à tarde escrevendo um textão desses, porque NINGUÉM MERECE.

Então, queridos membros do júri, eu encerro essa breve sessão e vos declaro culpados pelos crimes de agressão verbal, ignorância intelectual, apologia à violência, falsidade ideológica de fakes, burrice aguda, e o crime mais grave de todos com pena prevista de 40 anos sem internet: usar a frase “não tem louça pra lavar?”.

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