Como salvar a família tradicional

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Essa é minha carta aberta à família tradicional. E é de amor, eu juro.

Sei que vocês raramente estão interessados em ouvir, por isso, eu vou começar dizendo que os entendo. Sério, eu realmente entendo o que vocês estão tentando fazer pra “proteger” os filhos de vocês, a moral, os bons costumes, o tradicionalismo pelo qual vocês tanto zelam.

Eu conheço direitinho os métodos, os sonhos e os segredos por trás dessa luta pelos “direitos tradicionais”. Afinal, vocês já estavam no comando da sociedade há mais tempo, vocês que inventaram o casamento, a família, os porta-retratos com todo mundo sorrindo. Vocês tiveram (e ainda têm) um enorme trabalho pra manter intacta a fachada de felicidade, e simplesmente não é aceitável que homossexuais, aqueles seres estranhos e coloridos que não se reproduzem, saiam por aí estampando amor e alegria, e pregando liberdade de expressão como se isso fosse normal e natural. Já não basta as feministas querendo acabar com o casamento?

Que ousadia! Que nojeira! Que sociedade doente exibindo e incentivando esse tipo de perversão nas escolas, nas ruas, na televisão!

Eu fui criada pela clássica família tradicional. Bem clássica mesmo! Meu pai fez tudo o que disseram que ele deveria fazer em prol da instituição familiar. Ele me manteve em casa, protegida, cercada, sem poder dormir nas amiguinhas, sem poder usar saia, sem falar com meninos, sem conhecer as crianças da rua que só falavam comigo quando a bola delas caía no meu quintal. Minha mãe me ensinou a varrer o chão desde pequena, me comprou um jogo de panelinhas e até me deixava pôr comida de verdade nelas. Eu fui uma criança que não aprendeu a andar de bicicleta, a nadar, nem a se defender de nada, porque eu simplesmente não fui exposta a perigo nenhum. E eu sei que existem milhares de famílias assim. E eu sei que elas mesmas se perguntam o que fizeram de errado quando o filho não é exatamente quem elas gostariam que fosse. Querem saber? Porque eu tenho a resposta.

O que destrói a família tradicional é o que destrói qualquer ser humano. A falta de liberdade individual. A esposa que não pode, em hipótese alguma, sair sem o marido. O filho que não tem voz dentro de casa, que só deve obediência, que não consegue se sentir amado sem agradar os pais. Não é a televisão. Não é a escola. Não é a rua. É a própria noção equivocada de amor que se aprende no lar. Um amor que prende, que amarra, que molda e que machuca. Então, quando se olha pra fora e se vê seres livres, que amam sem exigir padrões, que se apoiam, que se ajudam, e que vestem e falam o que querem, obviamente surge o sentimento de ódio. E então o ser enclausurado os considera doentes, pois eles têm tudo aquilo o que ele não tem: liberdade. De espírito. De voz. De personalidade. E principalmente, de corpo. São donos dos próprios desejos, das próprias vontades, da própria matéria. Coisa que o enclausurado jamais será, pois está amarrado.

Por isso eu reafirmo que entendo. Eu entendo o que meu pai tentou fazer comigo, e entendo o que vários pais tentam fazer com seus filhos. Mas estão olhando para fora ao invés de olhar para dentro, e é aí que erram. Se você diz que ama seu filho incondicionalmente, então por que impõe a ele diversas condições para ser amado? Por que ensina pra ele um amor extremamente restrito a certas características físicas e emocionais? Percebe que o problema não é ele e não são os outros, é você? Tratamento psicológico todos nós precisamos. Porque eu sei que é difícil. Eu sei que não é da noite para o dia que você vai acordar aprendendo a amar as diferenças, mas deveriam ter lhe dito que você tem métodos de aprender, melhorar e evoluir como ser humano. E o método que eu aconselharia é justamente a convivência. É você abrir espaço na sua vida para pessoas de todos os tipos e perceber que a “diferença” é um mito, e que elas são exatamente iguais a você. Com dias bons, ruins, tristezas, alegrias, e dívidas de cartão de crédito.

Isso é a minha tentativa de alertar a família tradicional que tanto preza por si própria. Salvem-se mudando seus métodos! Permitam-se amar de verdade e não só de fachada. Aprendam com aqueles que já sofreram com a repressão que vocês colocam sobre si próprios, e que podem lhes mostrar o verdadeiro caminho do amor real e da liberdade individual. E principalmente, revejam o conceito de “família” e as novas e belas formas em que essa palavra se encaixa.

Doente é aquele que limita o amor. E se você entende isso, lute! Não só diga “eu apoio, eu respeito”, LUTE mesmo! Encontre métodos de ser inclusivo, e de apoiar quem tem a coragem de ser livre numa sociedade amarrada.

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