Choro de amor

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Sete dias se passaram desde que eu experimentei a sensação mais bonita da minha vida, e hoje eu me peguei chorando de amor. Não por amor. De amor. É diferente. Quando se chora POR amor, se chora com tristeza. Quando se chora DE amor é excesso de felicidade. Um excesso que transborda em cada gesto do dia-a-dia.

Quatro meses se passaram desde que um programa de televisão mudou minha vida. Não é a primeira vez que isso acontece. Eu sempre estive no limite entre a realidade e a ilusão das telas, e agora, novamente, eu me deixei levar pelas lições de um apresentador. Apresentadora. Ru Paul é o nome dele. Dela. Interessa o gênero? Realmente importa o pronome? A cada episódio, eu vi ponto a ponto da minha instável personalidade se alterar. E não muito antes disso, eu estive numa taróloga que me deu o alerta: “tudo ao seu redor está bem, mas o seu interior é preocupante, você precisa parar de se sabotar e aprender a se amar o quanto antes ou nunca vai progredir”. Livros de autoajuda, treinamentos inspiradores, amigos novos, nada me atingiu tão forte quanto aquele programa sobre homens que se travestiam e faziam umas dublagens maneiras. Homens! Logo eu que sempre me cerquei de inspirações femininas, agora me via aprendendo sobre mim mesma através das histórias daqueles homens e suas personagens mulheres. E quando dei por mim, eu já estava buscando no espelho uma imagem melhor do que aquela que eu me mostrava. Eu busquei um novo rosto dentro do meu. Eu busquei o meu lugar como mulher, eu entendi meu corpo e passei a me sentir bem nele. Eu percebi que gênero é o traço menos relevante da complexidade humana.

Não foi o suficiente. Eu quis estar onde as queens estavam. Eu quis sentir a energia delas. E começou no show da Sharon Needles. E eu vi Marcia Pantera, vi Tiffany Bradshaw, vi Ikaro Kadoshi, vi Sasha Zimmer. E eu só as olhei, não consegui falar. Boba. Impressionada com a luz forte que saia de cada uma delas. Maravilhada com o trabalho bem executado de cada movimento no palco. Daquele lugar, eu já saí com a sensação de ter vivenciado algo mágico.

Teve o show da Alaska. Teve Divinas Divas. Teve uma passada rápida no Mirante. Sempre com algum gostinho doce de “quero e preciso estar mais envolvida com isso”. Então teve o dia 29 de julho. Sete dias atrás. Cover Girl é o nome da festa. E ali já não era mais sobre amor próprio, e sim, sobre amor ao próximo. O sentimento que eu vivi ao estar cercada de artistas incrivelmente talentosos(as), lindos(as) e receptivos(as) foi tão especial que me levou uma semana para encontrar palavras que pudessem explicar pelo menos o mínimo. “Aqui é muito família”, foi o que a Dora Escher me disse depois de dançar comigo e corresponder ao carinho genuíno que tenho por ela. É exatamente isso. Família. Uma definição perfeita de família. E é por isso que agora eu estou chorando de amor. Pois por maiores que sejam as diferenças entre nós, por mais que eu nunca tenha ouvido ou sofrido todas as injúrias que aquelas pessoas tão amáveis ouvem e sofrem todos os dias, eu entendo a sensação de procurar por um lar. Eu entendo como é se sentir diferente de todos os que moram com a gente, de não corresponder aos sonhos dos nossos pais, não conseguir seguir os padrões, não ter  voz ativa dentro de casa, sentir-se carente de afeto materno/paterno/fraterno. Viver num eterno complexo de Dorothy, querendo voltar para um lar sem saber o caminho. Ali, mais do que amar a mim, eu amei aos outros, eu amei os momentos, as apresentações, as palavras e a sensação de estar viva e ser querida. A Cover Girl foi a celebração mais linda da qual eu já participei, e imagino que seja como os fiéis se sentem quando vão à missa, procurando conforto, oferecendo ajuda, agradecendo pela união dos que ali estão, mas claro, com muito mais glamour e diversão do que uma cerimônia religiosa, afinal, o que impera é a liberdade de expressão e de espírito. Eu não precisei conversar com todas as queens para me sentir acolhida por elas. Um sorriso, um olhar, uma piscadela foram suficiente para me preencher de amor. Mas as que além do básico, me ofereceram palavras, Dora e Lorelay, é de vocês a minha eterna gratidão por terem me feito sentir parte de uma família atenciosa e preocupada. A Lorelay até esperou o meu Uber chegar e por mais simples que esse gesto pareça, foi mais uma grande gota no meu choro de hoje. Não falta amor no mundo, falta saber trocar uns com os outros o que cada um guarda em si.

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Um comentário em “Choro de amor

  1. QUE COISA MAIS LINDA!!!
    Neste momento, lágrimas escorrem no meu rosto 💜 e são de emoção e felicidade.
    Muito obrigada por esse carinho, que é recíproco!
    É incrível saber que a arte da qual eu tento viver toca algumas pessoas tão profundamente ! Isso me motiva a continuar e ser cada vez melhor !
    Beijos, sua linda !

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