Não era pra esse texto existir

Era pra eu estar escrevendo o quinto capítulo do meu livro novo. O terceiro! Já é o terceiro livro! E eu nem sei dizer de qual parte do meu organismo saíram os outros dois. Eles são distantes de mim agora. O terceiro tá no ventre. E tá no estômago também. E tá no rim. Tá no fígado. Ele tá todinho em mim. E tá me assustando. Não sei se é bactéria ou se é sangue tipo O. Eu estou com medo do meu próprio monstro.

É que eu inventei. Eu inventei! De falar de coisas que eu acho que devem ser faladas e que não são faladas direito. Mas eu não sei porque eu pensei que tivesse propriedade pra falar de coisas que eu acho que devem ser faladas e que não são faladas direito. E se eu estiver falando torto também? E se as palavras me traírem e não se fizerem compreendidas? E se for um insulto? Se for uma vergonha? Uma coisa que nunca deveria ter sido escrita? E se for que nem esse texto? Esse que só está nascendo porque o quinto capítulo não quer se escrever. Esse que não era pra existir. Esse que veio do medo. Do ventre. Do estômago. Do rim. Do fígado. Até me doem as costas! E a parte de trás da cabeça!

Eu não sei o que vai ser do terceiro. Provável que não seja nada. Que não faça barulho. Que seja quietinho, igual aos outros. Não é como se ele conseguisse se jogar em prateleiras de livrarias. Ele vai existir. Em 20 exemplares talvez. E vai sumir. E todo esse medo, essa dor, e esse texto terão sido em vão.

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