Carne vermelha

Esse texto é sobre suicídio. Achei melhor avisar pra que você já fique incomodado logo de cara. Porque esse tema é mórbido, e é tendência social evitar a morbidez. É tendência social ignorar a carne vermelha de um corpo todo machucado, às vezes coberto com munhequeiras, pulseiras, moletons no calor, calças largas e meias. Não é só no pulso, é no corpo todo. Não é só no corpo, é nos órgãos, na mente, na alma. A dor do suicida começa quando ele aceita esse rótulo. Quando, pela primeira vez, surge a ideia do coquetel de remédios, dos trilhos de trem, dos prédios altos, das navalhas, da música tema e do bilhete de despedida. Todas as alternativas que alteram o percurso natural da vida.

Esse texto é sobre você. Sobre mim. Sobre nós e sobre eles. Os que já foram, os que querem ir e os que ainda vão pensar sobre isso um dia. Sobre os que conhecem alguém que tratou desse assunto num caderno ou mesa de bar. Sobre quem perdeu uma pessoa pra ela mesma. Sobre a dor que a dor alheia nos causa.

Quando nos surge a sensação de solidão, não nos damos conta. Focamos no que está dentro, no vazio, no buraco, o vácuo infinito dentro de nós, aquele espaço no coração que faz eco no cérebro. Não nos damos conta. Quando parece que todos ao redor querem nos machucar, não nos damos conta. É como se a dor dentro de nós tivesse acabado de ser inventada. O assunto é velado, ridicularizado, sentimentos desvalorizados. E não nos damos conta: de que os outros também sentem. O medo, o vácuo, a confusão, a paranoia, a solidão, a baixa autoestima, a carência afetiva, está cada um escondendo os seus. Atrás de fotos, atrás de textos, atrás de cortes, ou de atitudes que joguem a responsabilidade de si mesmo para terceiros. Ninguém sabe o sentido da vida. Ninguém sabe o que acontece quando ela acaba. Mas parafraseando Titãs “cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração”. A vida que a gente tem é nossa. A história que a gente escolhe viver é de nossa autoria. A tão sonhada liberdade talvez seja só uma projeção fantasiosa, mas mesmo que o sistema, as pessoas e as circunstâncias tentem nos controlar, o que carregamos em nós é somente nosso, não é de mais ninguém. E o segredo que todo mundo esconde: é que ninguém sabe direito o que está fazendo consigo. Os que estão indo bem e os que estão indo mal, ninguém sabe direito o que está fazendo. Eu não sei. Você não sabe. Mas a gente vai descobrindo umas coisas e contando pros outros, porque talvez sirvam pra eles. O que eu sei e quero te contar é que somos sobreviventes. Se você ainda está aqui (independente de qualquer coisa), você é muito mais forte do que imagina. Dê a si mesmo um tapinha no ombro e diga “bom trabalho”. É mérito teu. Outra coisa que eu entendi e adoraria que você pudesse entender é que a sua vida é só sua e que você tem todo o poder de tapar o buraco dela. E eu sei que já devem ter te dito isso milhares de vezes, mas uma coisa é ouvir, outra coisa é conseguir sentir o que estão te dizendo. E como num videogame, cada um tem o seu tempo pra passar de fase, mas todo mundo tem a capacidade de zerar o jogo e ver WINNER brilhando na tela. Tome seu tempo pra se explorar. Nós somos cheios de mistérios até pra nós mesmos, e descobrir as surpresas boas dentro das nossas próprias caixas secretas é o que nos preenche.

Esse texto não é pra te dar bronca, te dar conselho ou lição de moral. É pra te fazer ouvir o lado B das fitas, e ler o lado rasurado das cartas que ninguém mostra. Não importa sua idade, seus dilemas ou suas crenças, o que eu gostaria que você procurasse é aquele sentimento brega que todo mundo tem vergonha de assumir que sente (porque ser humano é meio doido e torna tudo tabu): amor. O seu amor. O amor que você esconde aí no fundo e que costuma dar pra várias pessoas, mas não sabe dar pra si mesmo. Ao invés de terceirizar a culpa, terceirize a visão que tem de si. Tente se ver como outra pessoa, a pessoa que você não enxerga porque está olhando pra dentro e não pra fora. Visualize na sua frente a criatura que você é. E dê pra ela o amor que você sabe dar aos outros. O carinho, o cuidado, o afeto. O “eu te amo” por mais ridículo que pareça dizer isso a si próprio, por mais que você nem acredite. Porque o amor abre suas caixas, e quando você conseguir finalmente abrir as dezenas escondidas em você e encontrar seus próprios diamantes, o valioso é todo teu. E como bônus, o mundo também te abrirá as caixas dele.

Pra não perder o costume de encerrar com uma frase de efeito, aqui vai a que me salvou: Ame a si mesmo como se sua vida dependesse disso.

Ps. Às vezes, eu também esqueço das minhas caixas. Esse texto é pra nos lembrar.

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