Nossa mini-biografia inacabada

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A gente quase nasceu no mesmo dia. É provável que tenhamos apostado corrida, e você, competitiva, chegou antes, o que fez com que o nosso mapa astral ficasse assim meio parecido.

Aos quatro (talvez três) anos, nos conhecemos, mas se não fossem as fitas de vídeo que o colégio vendia, nunca saberíamos. A minha melhor amiga na época era a Luana. A sua também. E eu não me lembro de você, nem você de mim. A Luana devia ser a maior traíra, fingia que eu era a mais especial, e depois fingia o mesmo pra você.

Fomos nos encontrar de novo aos onze, quando me contaram que a Marina voltaria pro colégio, e eu fiquei muito feliz, porque pensei que fosse outra Marina, uma que eu lembrava. Mas não era. Era você. E eu te achei linda. Todo mundo na sala te achou linda. Os cachinhos no cabelo, umas faixas coloridas, e uma inocência que o ginásio precocemente te arrancaria. Seus trabalhos de arte eram os melhores, os de história os mais bem feitos. E você ainda ganhava medalhas em campeonatos de xadrez e tinha grupinho de discussão do Harry Potter. Eu te achava incrível. Mas eu era esquisita, usava as calças do uniforme quase nos peitos. Gordinha, de cabelo curto, e tinha uma única amiga que usava pompons na cabeça. Eu ouvia Chico Buarque e achava todas as meninas da sala muito idiotas, mas secretamente queria ser como elas. Eu te abordei poucas vezes, tentando ser simpática, mas logo você entrou numa fase meio dark, e aí ficou chata. Começou a me pentelhar e me chamar de ameba. Passou a usar maquiagem pesada e alisar o cabelo. E quando você sumiu por dias, e todo mundo pensou que você estava com catapora (a escola fez todos nós tomarmos vacina), ninguém imaginava que você estava no hospital por conta de uma amiga traíra perversa psicótica desgraçada que quase te matou. Você já era muito mais adulta que todos nós juntos, com umas experiências fortes demais pra nossa cabecinha.

Aos quinze nos encontramos de verdade. Eu já estava cansada de tentar ser alguém que não era e pendurar pôster da Avril Lavigne no meu quarto pra parecer “normal”. Você também. A gente não se encaixava com as outras meninas porque elas eram falsas mesmo. Criticavam umas às outras pelas costas e eu nunca achei isso legal. Eu estava só. Minha única amiga dos pompons na cabeça arrumou um namorado que me odiava. E foi na festa dela que o nosso filme começou. Te juro que se um dia eu escrever um longa sobre nós, essa será a primeira cena: NOITE. FESTA DE ANIVERSÁRIO. CASA DE ALGUÉM. Marina se aproxima do mini system que toca rock pesado. Pega o aparelho e senta no canto, usando salto vermelho e shorts transado. Com o mini system no colo, ela retira o CD da aniversariante e coloca um CD da Britney Spears que tirou da bolsa. Giuliana a vê sozinha, e se encanta com sua ousadia. Ela se aproxima. As duas conversam. Um novo big bang surge no universo.

Eu nunca esqueci daquela noite, porque depois disso foi só amor. Intenso até não caber mais. As mesmas músicas favoritas, a mesma vontade de ganhar o mundo, a mesma ambição, os mesmos planos, o mesmo tipo de humor e a mesma visão de amizade. Ficou decidido que nunca mais nos separaríamos. E olha que tentaram! Meu pai tentou, os colegas de classe, a diretoria da escola. Era nós contra todo mundo. E o mundo foi tão cruel. Eu segurava na tua mão e estava junto pro que viesse. Trancadas no banheiro pra não apanhar. Rejeitadas nas festas juninas. Inovadoras nos trabalhos de literatura. Eles ainda estavam nas cartolinas quando nós já produzíamos curta-metragem sobre Incidente em Antares. Foram fins de semana no shopping, e alguns dias na praia. Foram planos de ganhar o Oscar. E as peças de teatro. O medo da faculdade. O medo de nos separar. Quer dizer, você sempre foi corajosa, eu é que tinha pânico de estragar o nosso paraíso.

Viramos dupla oficialmente. Colocamos na cabeça que seríamos pop stars com turnês mundiais. Decidimos cantar, porque queríamos algo que o Brasil não tinha. Fizemos um photoshoot meio estranho e escolhemos um nome pegajoso. Sonhamos. Como sonhamos! Sonhamos pra caralho! Enviamos demos pra gravadoras, participamos de show de talentos, entramos em becos atrás de estúdio de gravação, recebemos carta da Tila Tequila, e choramos. E olha, a Tila estava certa. Ninguém nos pararia, além de nós mesmas. E então puxamos o freio.

Até quando você deixou de cantar comigo, nunca permitiu que eu me arriscasse sozinha. Estava lá, brigando por mim, acreditando na minha loucura e gritando histérica quando eu subia em palco de boate me achando a Madonna.

Outras pessoas vieram. Algumas se foram. Outras versões de nós mesmas surgiram. Nós fomos pra Las Vegas, nós vimos a deusa que nos uniu. E só a gente sabe o quanto ela é enorme pra nós. Arriscamos juntas e ganhamos as passagens juntas. E voltamos diferentes. E aquele fim de semana nos mudou pra sempre. A gente passou a acreditar que tudo era possível. Crescemos um pouquinho, e você começou a usar animal print e fazer vídeos pro youtube.

Eu larguei a música, agora tô nesse lance de escrever. Você largou o teatro (mas sei que logo mais volta), e virou professora de pole dance. Lembra como a gente pedia pra fazer trabalho escrito na aula de educação física só pra não ter que correr na quadra? Lembra como você me achava anormal por preferir água a refrigerante? Você não tem mais cachinhos. Não usa mais faixa no cabelo. Não toma refrigerante, e encontrou a grande paixão da sua vida. Você tá indo viajar pro exterior sozinha. Você disse que eu preciso me dar mais valor. Você ontem mesmo me viu chateada por querer passar mais tempo com você, e cancelou seus compromissos pra ficar comigo. E a gente brincou de maquiagem, e a gente ouviu Britney Spears, e conversamos até dormir como se novamente tivéssemos quinze. Foi significativo pra mim. Quando acordei, pensei no baita orgulho que sinto da mina que você se tornou. Pensei como eu me refiro a você como “personagem, ela é meio diva, não parece real” quando tento te explicar pra quem não te conhece. É difícil te desenhar. Ela ensina pole dance e me humilha nas selfies. Lê pra caralho e fala sobre obras literárias que eu nem sabia que existiam. Ela revisa meus livros e curte meus textos. É viciada em série, ama sair pra beber e tá sempre num karaokê. Ela é um gigante numa calça 36 e sapato 34.

Nós vivemos um bocado, e ainda falta um monte. Falta tanto. Falta a gente realmente se dar bem na vida, e é incrível perceber que estamos fazendo nossos próprios caminhos, tropeçando, mas levantando divinamente. Falta você ter filhos e eu ser madrinha. Falta você mudar de casa. Eu comprar apartamento. Natais. Anos novos. E mais dezenas de aniversários compartilhados. Falta um monte de coisas que virão. O tempo vai passar cada vez mais rápido. A gente ainda vai brigar muito, e toda vez eu vou pensar que acabou, mas nunca vai acabar. Porque a gente não acaba. A gente recomeça. Com novos planos, novos tons e cortes de cabelo, mas com as mãos sempre entrelaçadas de crianças que brincaram juntas e não se lembram.

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