Epifania Show

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Tive uma epifania enquanto esperava o metrô lotado hoje e pensava no quanto eu ia xingar o Geraldo Alckmin no Twitter assim que conseguisse me mexer pra pegar o celular. Porque é todo dia! Sabe o que é todo dia alguma falha no transporte público e a mesma mensagem “devido à falha num trem de uma estação que você não está (porque nunca acontece numa estação que a gente tá, engraçado), os trens estão circulando com velocidade reduzida e maior tempo de parada”. Isso é o novo “bom dia”, o novo “fora Temer”. Mas, enfim. Ah sim, a epifania! Então, num súbito, meio que me ocorreu que talvez eu goste dessa muvuca. Não gostar a ponto de programar chegar atrasada e torcer pra estar dando encrenca, mas eu gosto de ter um problema idiota pra reclamar. Eu gosto de reclamar, pronto, é isso! Eu preciso que as pessoas sejam mal educadas e não deixem a esquerda livre na escada rolante. Eu preciso fazer que sim com a cabeça quando as ouço dizer que pobre sofre. Preciso de faróis quebrados e motoristas que param na faixa. Crianças que choram em restaurante e casais que brigam em livraria. Paçoca cancerígena e participante chata de reality show. Cachorros que latem a noite inteira, requeijão vencido na geladeira, pote de sorvete cheio de feijão. Eu sou dependente desses pequenos surtos de raiva do cotidiano, que me possibilitam passar nervoso com razão. Porque eu passo muito nervoso sem razão. Sem noção. Sem necessidade.

Dentro da epifania, eu pensei na caixa que comprei pra um presente que estou preparando há meses. Eu queria que fosse uma caixa perfeita, bonita, que coubesse tudo que eu quero pôr dentro. Não é metáfora, eu não tô querendo que vocês pensem fora da caixa, eu tô falando sério hoje. Eu passei dias indo a lojas, procurando a caixinha, e na última sexta, eu encontrei. Está no meu quarto aguardando destinatário. E agora eu saio do trabalho, vou direto pra casa e a caixa está lá: perfeita, sólida, esperando cumprir seu destino. Agora é a vez da própria caixa procurar o que eu já encontrei. Entendem? A velha questão: A gente quer mesmo encontrar o que estamos procurando, ou o que nos torna vivos é justamente a eterna procura? Se todos os dias o metrô funcionasse, os políticos fossem bons, e a novela fosse bem escrita, eu seria obrigada a encontrar coisas muito piores pra reclamar, tipo meus próprios problemas. E eu não quero encontrá-los. Se a sociedade estivesse em perfeita ordem, quem estaria em desordem seria eu. E eu, egoísta, prefiro que seja ao contrário. Eu quero reclamar de vocês, não de mim. Vocês reclamam de mim. Seja com indiretas no Twitter, ou com as almofadas no quarto. E obrigada! É uma colaboração! O que seria de mim se vocês não reclamassem? Como eu poderia me integrar no grupo? Não sei. A minha vida, no geral, está ótima. Coisas realmente incríveis têm me acontecido. E eu preciso que vocês continuem sendo falíveis pra eu poder ser também.

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