Esse texto é sobre mim

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Por que eu fiquei tão longe?

A vida é mais perigosa do que se apresenta. E todos somos um pouco homicidas. Suicidas também, mas nem sempre nos matamos intencionalmente, às vezes nos assassinamos a pauladas, esquartejamos nossos próprios órgãos pra nos fazer caber nas caixas que o destino nos coloca. Trágico. Certamente nojento de imaginar. Mas é trágica e nojenta a idade adulta. A gente destrói a criança cheia de sonhos e o adolescente cheio de certezas, e se preenche de pretextos pra ganhar dinheiro, ceticismo, dúvidas sobre todas as coisas e soberba de pensar que entendeu do que se trata a história. A gente se muda, simula, se mata. E depois se pergunta “onde é que eu fui parar”? Não nos reconhecemos nem no espelho mais, a cara fica esquisita. E então usamos um texto num blog qualquer pra generalizar uma situação que é unicamente nossa.

É sobre mim esse texto. Nem toda idade adulta é nojenta. A minha vai até que bem, mas às vezes eu sinto saudades. Sabe? Saudades? De mim mesma. De quem eu não sou mais. Das certezas que eu tinha e que acabaram. Das vontades e os planos de ganhar o Oscar. De tudo que eu pensei que seria minha vida adulta e não foi. Eu sinto saudades de sonhar alto, muito alto, porque hoje, mesmo quando estou em plano baixo, ainda me dizem que é alto. Como que eu destruí tanta coisa e não percebi? Eu não saí do cenário, mas o elenco mudou. E não era pra ter tirado alguns personagens que eu amava. Eu e ela. Hoje eu lembrei, sabe? Lembrei! Do nosso quarto mundo. Das nossas próprias músicas. Da recusa em fazer educação física. Quem diria! Eu fico lembrando às vezes, e é como acessar as que éramos. Tão valiosas! Tão especiais! Um sentimento que pouca gente conheceu. Que sorte. E quem somos hoje? Individualmente vamos bem, mas quem somos hoje? Aonde estamos? Não fui só eu que deixou chegar nesse ponto. Eu não faria tanto estrago sozinha. Foi a vida. Lembra? A vida é perigosa, eu disse ali no outro parágrafo. Ah, mas é tão fácil culpar a vida, ela nem advogado tem. Eu matei tantas de mim, matei tantas dela, que foi sobrando quase nada. Agora eu choro o luto enquanto recolho cadáveres. Bala perdida, quanta bala perdida. Amy, M, Juliette, Giulie Anny. E essa que agora escreve já reservou a própria cova.

Pra não dizer que nada ficou intacto, o amor ficou. Ele que já não serve pra mais nada é o único que nunca mudou. Esse não morre e não se põe em caixa. É o que ainda garante ao coração de gente grande a postura de criança. É o que ainda murmura que a gente volta a se encontrar. Eu e ela. Lembra? Eu menti. Esse texto não é só sobre mim.

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