O último dia do cientista do fim do mundo

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Demyan programou o despertador para as sete horas em ponto, de acordo com o fuso-horário russo, e ao contrário do que fez a vida inteira, não pediu mais cinco minutos ao início do dia, mas sim pulou da cama cinco minutos antes de o próprio despertador prestar seu serviço. Afinal, Demyan sabia, e apenas ele sabia, que aquele era o último dia da passagem dos seres humanos pela Terra. Em seus quarenta e dois anos estudando por conta própria planetas, galáxias, o formato do anel de saturno e a rotação das hélices do ventilador, o autoproclamado cientista detinha a resposta que nem o calendário Maia soube dar. E que se dane a descrença da humanidade sobre suas pesquisas. Que se danem os eleitores do Crivella, os defensores da alimentação vegana e os líderes de empresas automobilísticas. Demyan tentou avisar, e sendo o último dos sábios (tão sábio que infelizmente nunca poderia ser reconhecido), viveria seu último dia da melhor forma que conseguisse.

Pra começar, não escovou os dentes, foi direto para o café da manhã que encomendou na padaria mais cara da cidade. Bolos, sonhos, pães de alho, churros de doce de leite, e donnuts com cobertura cristalizada. Comeu sozinho, esparramado em cima de quatro almofadas, as quais ele furaria logo em seguida só pelo prazer de destruí-las. Quebrou também alguns pratos e riscou uns discos que a ex-namorada estava pedindo de volta. Derrubou café no chão e esperou que as formigas chegassem pra festa. Às 8h45, saiu vestindo calção de dormir e casaco de pele sujo de mostarda. Às 9h30 tirou a roupa dentro da filial da Ralph Lauren, de onde foi embora usando três ternos, uma bermuda bege e sapatos de couro italiano passados à vista no cartão de crédito.

Fez careta pra bebês na calçada. Esperou o sinal fechar para não correr o risco de ter uma morte prematura. Tocou campainhas. Mandou SMS pra ex dizendo que ainda a amava. Mandou SMS pro chefe dizendo que ele era um bosta. Meteu-se atrás de uma reportagem com um cartaz escrito #AliensPleaseComeToPlanetaTerra. Chutou latas de lixo, mijou em postes e foi o vândalo que sempre quis ser. Bebeu o whisky mais caro do bar. Experimentou pimenta malagueta. Sacou todo o dinheiro do banco e fez aviõezinhos de papel. Subiu no terraço de um edifício comercial e atirou os aviõezinhos de papel, cantando o jingle da campanha do Vladimir Putin.

Gritou o mais alto que conseguiu. Aumentou o volume de qualquer rádio que avistou. Dançou com os postes como se estivesse em La La Land e aproveitou para recitar em praça pública o seu discurso pelo Nobel de cientista do ano (sendo muito aplaudido pelos andarilhos que ali passavam, diga-se de passagem). Parou na livraria. Leu a primeira e última página de cada livro que um dia planejou ler. Descobriu que o Gatsby morre no final. Contou pra menina que pensava em comprar O grande Gatsby que o Gatsby morre no final. Comprou ingresso pra filme 3D e assistiu só aos primeiros quinze minutos. Pulou sozinho. Riu. Dançou funk russo. Gargalhou. E sempre que se lembrava, olhava para o céu esperando chegar a grande onda. Ele sabia o dia, mas não sabia o horário do fim do mundo. Estava ansioso pela fração de segundo em que sentira o gosto de água salgada, ouviria os gritos, veria a correria, os prédios caindo num piscar de olhos, o chão tremendo e as luzes todas se apagando. O grande evento! O último evento! E de tão eufórico, ficou calmo. Sentou na grama do parque florestal. Viu as pessoas, os cachorros, o pôr do sol, as folhas caindo das árvores, os patos no lago disputando migalha de pão, as três Marias surgindo, a lua, os pedais das bicicletas, a sua própria sombra desaparecendo e o guarda avisando que o parque estava fechando. Era bonita mesmo a vida. Era breve. E Demyan voltou pra casa faltando duas horas para a meia-noite. Duas horas pra tudo acabar. Menos de cento e vinte minutos para o cometa chegar. Ele, o astro, o dono do apocalipse, o “2016-WF9”, o amigo inimigo, o encontro explosivo que Demyan tanto aguardava. Ele chegaria pra destruir qualquer coisa que o homem não destruiu sozinho, inclusive o próprio homem! E por isso, antes de sentir a água do mar entrar por todos os poros, Demyan soube bem o que queria, e não precisou de grande esforço cerebral ou físico para atender ao seu próprio e extremamente simples último pedido: um copo de água mineral gelada. O copo que ele guardou na geladeira na noite anterior especialmente para aquele momento.

O relógio da cozinha apontou 11h45 quando a água percorreu uma via errada do corpo de Demyan, e às 11h46, ele tentava desesperadamente se lembrar das dicas que viu nos programas matinais sobre engasgar-se estando sozinho. Às 11h47, o ar parou de entrar nos pulmões do cientista, e seus órgãos incharam. Não deu tempo de ele pensar sobre o caso e lembrar da letra de Ironic da Alanis Morissete. Não deu tempo de a vizinha chegar após ouvir sua tosse e identificar de onde vinha o barulho. Demyan perdeu completamente os sentidos às 11h54, sem saber que o fim não chegou pra todo mundo.

 

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