Uber DR

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Faltavam dez minutos pra meia-noite e mesmo que o metrô ficasse aberto vinte e quatro horas, eu não arriscaria voltar sozinha. Era aquela típica situação em que todos os seus amigos namoram e voltam pra casa com alguém, e é preferível dar seu jeito pra não ter que lidar com a solidão de dormir no quarto ao lado, sabe? Então eu tentei disfarçar a minha cara de derrotada enquanto meu celular velhinho tentava a muito custo abrir o aplicativo, quando parei pra pensar: como nós vivemos todos esses anos sem o Uber? Sério, parece que não me lembro da vida pós-moderna pré-uber. Ah sim, tinha o táxi, verdade, mas a gente tem essa fantasia de que Uber é duzentos reais mais barato e só quando chega a conta do cartão de crédito é que nos damos conta de que um terço do nosso salário vai pro aplicativo. Até aí, tudo bem. Uma que eu não sei explicar caminho pro motorista do táxi, outra que o Uber deixa eu compartilhar minha viagem com a minha mãe e ela fica assistindo como se fosse fórmula um. É mais seguro.

Faltando três pra meia-noite, consegui solicitar um carro, e foi então que apareceu o rosto dele na foto do motorista, seguido do nome Gabriel Salgueiro. Um 4.3 de estrelinha (no Black Mirror, ele seria péssimo). A dois minutos de me buscar. A poucos metros de me colocar no seu Ford Edge. Será que ele lembrava meu nome também? Duvido. Pra ele, eu era Giuliana baranga, que de tão ingênua, pensava que baranga era elogio. Eu tinha doze anos e só conhecia as gírias das novelas de época, desculpa! Mas eu logo percebi que era xingamento quando eu dei pra ele um colar com uma chavinha dizendo ser a chave do meu coração e me tornei a piada da sala. Pois é. Aquele carinha, a minha primeira e mais profunda rejeição amorosa, estava prestes a me levar pra casa numa corrida paga por mim. De repente, pareceu algo próximo da prostituição. Agora ele seria obrigado a me oferecer bala, água e perguntar qual estação de rádio eu quero ouvir. Seria obrigado a dizer boa noite. A regular a temperatura do ar, e me agradar pra conseguir estrelinha. Mas só o que eu queria saber é se ele se lembraria de mim.

O carro chegou exatamente à meia-noite. Cinderela time! E assim que eu o vi, percebi a abóbora da qual me livrei. Ele estava péssimo! Calvo. Flácido. Os olhos caídos. Os dentes amarelos de quem fumou a vida inteira aqueles Marlboro que levava pra escola e não me oferecia. No seu rádio tocava Simple Plan, o que me deu a impressão de que ele ainda tinha doze anos, mas estava preso num corpo de cinquenta e dois. Gabriel! Eu não admito que você esteja assim tão acabado. Eu escrevia nossos nomes nas contracapas dos cadernos, não me envergonhe. Eu me recuso a entrar nesse carro (mas vou entrar pra não ter que pagar a taxa de cancelamento do Uber)! E vou sentar no banco da frente que é pra você ter que lidar com a minha atual beleza de quem sofreu bullying e aprendeu a se cuidar.

“Boa noite, dona Giuliana. Vamos pra zona norte?” Dona Giuliana… Essa é a parte em que eu digito vários kkkkk. “Vamos. E estamos bem longe, então acho bom você se preparar, pois temos algumas contas a acertar no caminho.” – era o que eu queria ter dito, mas disse “uhum”. Ele não se lembrou de mim. Eu não sabia ao certo se isso era ofensivo ou apreciativo. Pra todos os efeitos, decidi que a maconha devia ter apagado algumas das memórias dele. Ou que eu fui tão importante que, como no filme do Jim Carrey, ele apagou apenas a mim. Agora a louca era eu. Ele não tinha memória. Já eu nunca apaguei as péssimas memórias que ele me deixou. Mas olha pra ele, amiga – minha consciência feminina dizia –, está acabado, e você está linda. É, mas ele tinha uma aliança, e eu ainda estava sozinha. O quanto realmente nós havíamos mudado de lá pra cá? A bad quis bater e eu pedi pra ele trocar de estação. A intenção era ouvir axé, mas vocês sabem como a vida é quando quer ser irônica. Claro que começou a tocar Jota Quest. Claro que começou a tocar a música que a minha mente pré-adolescente associou a ele. Claro que eu comecei a chorar baixinho. O que ele tinha feito com aquele ele que eu amei? O que eu tinha feito com aquela eu gordinha e rejeitada? De repente, a música já não era mais nossa, e nós já não éramos mais nós. Eu era passageira, e ele era o motorista do Uber me dando bala. Ele tinha razão em não se lembrar de mim, porque eu não existia mais, nem mesmo em memória. “Você está bem?” ele chegou a perguntar. Achei melhor não dizer nada. Chegamos ao meu destino e ele me desejou boa noite sem saber que eu ouviria Avril Lavigne a madrugada inteira pra superar as coisas que eu já devia ter superado. Saí do carro. O aplicativo pediu que eu o avaliasse. A corrida foi ótima. O carro era confortável. Ele foi simpático. Óbvio que eu daria cinco estrelas. Óbvio que eu dei uma estrela. A eu gordinha, agora vingativa, ainda existe e ninguém vai apagá-la.

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