Anitta, você me representa

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Devia ser 2013. Eu estava varrendo a casa quando vi, pela primeira vez, um clipe da Anitta na televisão. Pela batida da música e estética do vídeo, pensei que se tratava de uma cantora internacional. Então, a menina morena de laço na cabeça começou a cantar e a minha reação foi bipolar: HUMM POP DECENTE NO BRASIL, BOA SORTE PRA ESSA MOÇA / NÃO GOSTO DELA, ESTÁ GASTANDO DINHEIRO EM LAS VEGAS ENQUANTO EU LIMPO A CASA.

Uns dias depois, eu já estava bem ciente de quem ela era. Show das Poderosas tocava vinte e quatro horas por dia e eu só queria que a febre Anitta passasse logo. Minhas amigas sabiam a coreografia, meus amigos não paravam de falar dela, ela estava em todos os programas de TV e rádio, mas a moda mesmo era detoná-la. O típico lance de esculachar alguém que está fazendo sucesso pra se sentir bem com suas próprias derrotas. E quanto mais ela aparecia, mais a gente encontrava motivos pra falar mal.

Até que as letras começaram a grudar na minha cabeça e a imagem da garota Anitta, toda deslumbrada ao dar entrevista para o Faustão e a Marília Gabriela passou a ser engraçadinha. Ela era espontânea, muito ciente da fama, inteligente e determinada. E numa geração em que sucesso é estar nos tabloides, é ter likes e seguidores, qualquer menina que realiza o próprio sonho na proporção em que Anitta realizou o dela, agiria de forma igual ou parecida. Ela não tentava disfarçar ou fingir que era natural tudo o que estava acontecendo ao seu redor. Era visível o quanto ela tinha ralado pra conquistar o que estava conquistando, e esse mérito ninguém poderia lhe tirar. Não foi sorte, não foi acaso, foi trabalho duro sim, estudo e empenho. E no que ela se propunha a fazer, não tinha ninguém que fizesse melhor. Ainda não tem.

De repente, enquanto eu prestava atenção à sua história, Anitta pouco a pouco deixava de ser aquela cantora que eu ouço e tenho vergonha de admitir, e se tornava um exemplo de jovem sincera que luta pelo que quer sem precisar de máscaras. Se ela queria cantar funk, cantava. Se queria fazer plástica, fazia. E suas declarações, às vezes meio atrapalhadas, chamavam atenção e levantavam discussões. Estava na hora de assumir que a menina era cada vez mais relevante no cenário musical. A febre Anitta não passaria tão cedo.

Ainda em 2013/14, eu a vi fazendo show para dezenas de crianças no meio da Avenida Paulista. Atenciosa, disponível e grata ao público. Pare de me conquistar, garota! Será que eu vou mesmo ter que dar o braço a torcer? Um tempo depois, eu a acompanhei numa gravação pra televisão, e lembro bem do momento exato em que não havia nenhuma câmera (de emissora ou de fã) apontando para ela. Ali, sem nenhum registro, Anitta agitou todo mundo, fez graça, assinou camisetas; e o seu melhor ninguém filmou. Não teve jeito. Eu me rendi de uma vez por todas. Anitta é linda e é legal, caramba! Aceita que dói menos.

Assim como existe o American Dream, ela parece ser o símbolo de uma espécie de Brazilian Dream. Aquela que saiu de uma família com poucas condições, acreditou em si mesma e realizou seus sonhos, passando por cima das inúmeras e monstruosas críticas de internet e mídia maldosa de televisão. Sobreviveu ao sistema, chegou onde queria, e não para de subir. Suas músicas, seus clipes, seus shows estão cada vez melhores.

E por que eu estou falando da Anitta agora? Porque apesar de o meu estúpido preconceito ter se diluído, o de muita gente ainda está intacto e desproporcional. Eu estou falando da Anitta, porque essa semana uma marca de joias sofreu uma enxurrada de críticas por tê-la contratado como garota propaganda. Ou seja, as mulheres ainda estão atacando as mulheres. Pelo modo de vestir, de agir, e de quebrar as próprias barreiras. As mulheres brasileiras ainda estão inimizando outras mulheres brasileiras. Cadê a sororidade e a empatia com a mina do funk? Ou será que só funciona com a mina do sertanejo? Do pop internacional? Só funciona com a atriz global, e com a colega de escritório? Manas, o que tá acontecendo? Qual é, afinal, o grande problema com a Anitta? Por que ela não pode cantar na abertura das Olimpíadas? Por que ela não pode representar alguma marca, quando ela representa muito bem a diversidade feminina do nosso país?

Eu sei, o preconceito contra ela é real, e agora que eu a respeito, é muito fácil pedir para que todos respeitem. Mas por que será que desde o início, nós a atacamos? Eu entendi o meu motivo. Era inveja. Eu não aceitava que uma garota com a mesma idade que eu, os mesmos gostos musicais, os mesmos sonhos, e o mesmo deslumbre, alcançasse primeiro a linha de chegada. Então, atacá-la era me defender. Até perceber que ela merecia o tanto que eu achava que eu merecia também, e que valia muito mais a pena ficar feliz por ela e torcer pelo seu sucesso do que usá-la como um degrau pra pisar em cima e massagear meu frágil ego.

Hoje eu me sinto uma amiga distante da Anitta. Alguém com muitas afinidades com ela e que adoraria ampará-la quando ela sofresse esse tipo de ataque. Mas sei também o quanto ela é forte, e o quanto cada uma de nós precisa aprender com sua garra. A Anitta é todas nós quando a vizinha inventa fofoca sobre nossas vidas, ou quando saímos com a saia um pouco mais curta e vemos outras mulheres nos julgando no metrô. Ela é você e eu sofrendo preconceito no ambiente de trabalho por sermos novatas ou recebermos cantada do chefe. Você e eu chamadas de gordas por uma moça mais magra. Você e eu com fama de vagabundas só porque dançamos até o chão na balada de sábado passado. Ela nos representa na lupa. Ela nos mostra o que não queremos ver. A Anitta é a mudança que precisa ocorrer em nós.

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