Elis e Domingos

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Tá, a vida é cruel sim. Tragédias acontecem o tempo inteiro. As pessoas reclamam que o ano não acaba todos os anos. O Brasil é o país do futuro que nunca chega. Mas cassete, como tem coisa boa pra ver também!
Fui ao cinema duas vezes essa semana. Um recorde pra alguém que costuma assistir apenas às sessões das 14h no Cinemark, porque são mais baratas. Se eu pudesse, iria todos os dias, mas vamos pôr a culpa na crise, ela justifica bem a minha falta de grana e rumo na vida.
Fui ao cinema duas vezes essa semana pra ver filmes nacionais. Não adianta, são meus favoritos desde criança. Fui ver duas cinebiografias. Elis e BR 716. Não sei até que ponto ambos os enredos são fiéis às histórias vividas, e pouco me interessa saber. O que eu tenho pra falar é das sensações que as obras me passaram.
Não sabia nada da vida da Elis, muito menos da do Domingos Oliveira (diretor de BR 716). E fiquei bem feliz em ser leiga nesses assuntos, pois assisti a ambos os filmes sem saber o que esperar. Talvez essa tenha sido a minha sorte. A despretensão é um presente. Pois na saída do BR 716, esbarrei em homens muito bem vestidos, debatendo as atuações, o final, a fotografia, e dizendo pra quais colunas de cinema escrevem. Sério, fiquei com medo até de comer meus M&M’s e fazer algum barulho que os incomodasse naquela sala tão reservada com ar de cinema cult. Foda-se a pose deles e o meu desconhecimento. Eu não entendo do que deve ser técnico, mas entendo bem as emoções que filmes como esses são capazes de acender na nossa mente, alma e pelos do corpo.
Existe certa semelhança entre BR e Elis. Acho que é a sombra da ditadura sobre a juventude de artistas que lutaram, temeram e se alienaram à intervenção militar. Fez eu me sentir num ciclo. O medo deles se parece um pouco com o meu de agora, com o dos meus amigos. Amigos. Fiquei com vontade de telefonar pra eles enquanto os créditos de BR subiam a tela. Telefonar de verdade! Ouvir a voz, marcar uma festa. A internet nos afasta do contato humano de certa forma. Enfim, fiquei pensando se Domingos conheceu Elis, porque se ele for como o protagonista do filme, se apaixonaria mortalmente por ela. Se ele for como o protagonista do filme, ele é realmente maravilhoso. E generoso! Assistir ao BR 716 é como sentar ao seu lado, ver seu álbum de fotografias, e adentrar seu apartamento. Quando os personagens saem do local, parece que eu saí também. E quis tanto voltar! Pela primeira vez, uma obra fez com que eu me sentisse nostálgica pela vida do outro. É estranho. E gostoso. Dá saudade de histórias que não são minhas, e dá também uma consciência estranha sobre os meus próprios personagens, que por mim passaram, a mim marcaram e se foram sem que eu mais soubesse de seus paradeiros. O filme é um pedaço de vida.
Elis não, Elis é uma vida toda em pedaços. Eu saí da sala de cinema bem baqueada e precisei me trancar no banheiro de casa pra sentir a tristeza que emanou da tela. Aquela tristeza incompreensível que matou a protagonista da história. Elis é pesada, mas não aquele peso mórbido, é um peso quente, intenso, carregado de vida. Fiquei segurando ela no peito até conseguir desabar em lágrimas. É uma pena que eu não a tenha visto ao vivo. É uma pena que eu não conheça o Domingos também. Queria ter ido às suas festas. As dele e as dela. Mas no fim, é indiferente. Posso me contagiar de ambos por suas artes, e isso é talvez mais íntimo do que se tivéssemos tomado um whisky os três juntos.
E numa semana tão tensa como essa de final de novembro, respirar os ares alheios é o que torna tudo mais leve, faz valer a pena e traz de volta o sentido que perdemos no caminho. Lindos, sensíveis e fragmentos de vida: filmes.

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