Depois que comecei a ler

Eu não devia ter me metido com literatura. Devia ter continuado vendo graça no amadorismo. Devia ter continuado me sentindo estúpida, pois quando eu era estúpida e não conseguia ler livros, eu era eu mesma. Agora sou mistura. Estou toda cheia de palavras e estilos alheios, e enquanto escrevo, quase posso reconhecer os outros, mas não consigo encontrar a mim mesma no meio deles. Quando eu não lia, não tinha ninguém pra me dizer como fazer. Quando tudo que eu tinha era instinto, eu me rasgava sem técnica. Não que eu tenha agora alguma técnica, sou ainda completamente amadora, mas sonho em ser profissional, e isso não pode estar certo. Quando ninguém sabia que eu escrevia, eu queria que soubessem. Quando eu era criança e a professora pensava que eu copiava meus poemas de algum lugar, eu sofria calada, mas me sentia boa. Meu avô colecionava selos de jornal que ele trocava por livrinhos do professor Pasquale, e era esse o máximo de leitura que eu praticava no último domingo de cada mês. Na adolescência, quando a única aula em que lembravam meu nome era a de redação, eu brilhava. Já estava bom. Meus livros de português todos recortados de Manuel Bandeira e Mário Quintana. Eu os lia como se fossem achocolatado para meu paladar infantil, e eu queria ser como eles, como a Cecília Meireles, como a Clarice, mas a Clarice eu não posso ler porque eu deliro que somos a mesma pessoa, e essa é a mais egoísta e ordinária das minhas fantasias. Eu queria saber quem fui pra poder saber quem sou, pois sinto que não sou quem realmente sou. Tem um corpo no espelho que não é meu, e não é justo que eu acabe com a vida dele, ou mesmo que o fira às vezes. Corpo tão jovem, um tanto belo, tão diferente de mim. A moça poderia ser tanta coisa se não fosse eu pra atrapalhar. O mundo é bom com quem é só um corpo, e ela é um corpo comigo dentro. Se eu soubesse quem fui, talvez me deixasse ser de novo. E sei que fui famosa, pois sinto uma falta imensa da fama. Não é vontade, é saudade. Das cartas, dos salões de festa, dos broches, do palco, do nome. Como posso eu mesma não lembrar meu próprio nome se sinto que ele era nome próprio? Penso (fantasio e deliro) que tinha talento pra escrita, pois nessa vida de agora, escrevo antes de ter aprendido. Eu lembro, pequenina, lembrança mais antiga: “Giu, você já sabe escrever? Escreve seu nome pra eu ver.” E eu peguei papel e caneta e desenhei ondinhas, e me deu agonia, desespero. Eu não conhecia as letras, mas eu sabia escrever, e não conseguir desenhar o nome que me batizaram me deu a maior das angústias da vida. Ali eu vi que estava presa num corpo não meu, e tudo tinha começado outra vez. E eu fui crescendo e escrevendo, e deixando tudo guardado, pois a ninguém interessava tantos registros inúteis. Hoje, mamãe diz que eu devo tomar cuidado com o que escrevo, mas não posso. Se eu tomar cuidado com o que escrevo, fica mais difícil tomar cuidado com os trilhos do metrô. Hoje, minha família de agora pegou mania de me ler, ou quando não leem, porque alguém disse que eu sou boa, cismam que eu deveria me profissionalizar. Mas como se faz isso? Se eu descobrir as técnicas todas e nunca mais errar o português, serei eu uma profissional? E se eu começar a publicar em jornais, e se eu aprender o que as editoras querem, e se eu escrever o que as pessoas gostam, serei eu uma profissional? E se eu não fizer nada disso, serei amadora para sempre? O amadorismo tem a ver com anonimato? Depois que inventaram que eu sou boa, eu fiquei dependente de ser melhor. Antes era necessário tirar as palavras de mim, hoje é necessário que elas sejam lidas também, e eu não gosto disso. Não gosto da autonomia das palavras. Não posso ser alguém que depende de leitura, pois nunca fui alguém que colabora com a escrita dos outros. Mas depois que comecei a ler, tudo ficou ao contrário. Agora eu quero ser lida, mesmo sem saber se o que escrevo é realmente meu. E tudo que eu sinto é saudades da eu que encontrava prazer em sentar na varanda e fazer rimas sobre a lua, sem a soberba de querer ser uma das estrelas.

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