Carta fechada

Você já leu a carta aberta que a Maria Ribeiro escreveu pra Carol Dieckman quando estavam brigadas? Provavelmente não, porque a gente não conversou sobre meu novo vício literário chamado Maria. E a gente também não conversou sobre os recentes fatos políticos, sobre as coisas que andam acontecendo na minha casa, nem mesmo falamos ainda sobre o clipe novo que a Britney está gravando. Slumber Party, minha favorita do Glory. Lembra que eu disse “só saio dessa festa quando tocar Slumber Party”? Foi divertida aquela festa e acho que não deixei claro o quanto foi importante termos ido juntas e você não ter bebido nada, apenas porque sabe que eu não gosto quando você bebe demais. É que você é assim né, as suas declarações de amizade estão nos detalhes. Eu não, eu to sempre no grito, no show, nos cortes, nos textos, nas palavras. Eu fico só nas palavras. Por isso, você tem motivo pra não acreditar mais em nada do que eu digo.
Eu menti várias vezes quando não entendia bem o que estava acontecendo e mesmo discordando de você, eu dizia que estava de acordo e pedia desculpas, só pra evitar brigas maiores, só pra você ficar bem, pra eu ficar bem também. Tanta gente com dificuldade pra admitir erro e pedir desculpas, e eu, sempre do contra, me acostumei a dizer apenas isso, sincera ou não.
É que antes eu achava mesmo que estava sempre errada. Antes eu sentia culpa quando um sorriso me atingia o rosto diante do teu silêncio. Antes eu só tinha você e eu me jogava toda em cima de você, pesada, enorme, difícil de carregar, mas você carregava, não reclamava e ainda me colocava de pé pra eu cair sozinha outra vez. Só você aguenta meu peso, em cima de um salto agulha de travesti, e só você me conhece tão bem pra perceber que eu estou mentindo antes que eu mesma me dê conta. Você ainda é a única que eu tenho. Sempre será. E pensar numa anulação da nossa relação é questionar todo o sentido da vida e decretar que não existe eternidade, só pó.
Antes, eu morria de ciúmes de você com qualquer pessoa e tentava usar novas amigas como provocação pra você sentir ciúmes de mim também, mas você, completamente segura de si e confiante na nossa amizade, dizia que não sentia. Agora sente, justo agora que eu não fiz de propósito. Justo agora que eu pensei que estava claro que você sempre será a maior de todas. E sim, isso está claro, acho que não é disso que você duvida. O que você duvida é da nossa sobrevivência. O que te chateia é o espaço que eu delimitei pra você na minha vida. A gente sempre foi sem limites, nunca existiu pudor na nossa relação, nunca nada foi tão bonito, especial e íntimo.
Eu lembro da gente tomando banho juntas na nossa primeira viagem, e já éramos bem grandinhas. E depois do banho, deitamos na mesma cama, você leu todo meu caderno cheio de declarações sobre você, e eu te deixei usar uma folha inteira pra escrever bobagens. Eu tinha inveja da sua caligrafia desenhadinha. Lembro de ter chorado na última noite, porque você ia pra faculdade, ia fazer novos amigos e eu não seria mais a única na sua vida. Você disse pra eu parar de ser boba.
Nunca foi minha intenção delimitar espaço. Nunca pensei que eu pudesse ser tão egoísta a ponto de sentenciar: fique com seus amigos, eu fico com os meus e qualquer dia a gente se encontra. Não soube me adaptar. Nunca gostei de turma e você sabe. Todas as vezes que saímos em turma, a minha ou a sua, galera em geral, eu sempre voltei pra casa com um buraco no peito. Sempre com a sensação de que todos voltam acompanhados, menos eu. No nosso acampamento, que dor de abandono eu senti quando tivemos que voltar em carros separados. Chorei a noite inteira, como uma criança largada pela mãe. Não faz nenhum sentido, eu sei. Nunca fez muito sentido essa sensação, mas ela é real. Mas é minha e eu que aprenda a lidar. Eu chorava só de ter que te deixar sozinha na porta do colégio quando meu pai ia me buscar antes da sua mãe. Não sei que tipo de zelo psicótico é esse que me acomete.
Você devia ler a carta pública da Maria pra Carol, porque é o que eu faria agora se tivesse espaço num jornal. Eu te faria algum filme, um comercial, um álbum inteiro, talvez um livro, pra que todo mundo soubesse que eu te delimitei da minha vida, mas é impossível te delimitar da minha mente. Mas não sou uma pessoa pública, a única que me lê é você. E justamente você não acredita mais. Então, diante de um texto inválido, pedaço de uma pessoa inválida, só me resta pedir pra que você procure nosso amor infinito nos amores infinitos alheios, até que eu consiga encontrar alguma nova forma de romper os limites que coloquei em nós.

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