Morar. Demorar. Memorar.

O homem que mora em mim foi eu que construí. Como Gepeto construiu Pinocchio. De madeira, com roupas de príncipe e uma coroa dourada na cabeça. Ele é personagem, é música e é poesia a preencher o vácuo da minha existência. Aqui dentro, ele é boneco. Lá fora, ele é artista de verdade, mesmo que a maioria o veja como um acessório de plástico. Aqui dentro, ele ficou grande, e de tanto que ele me-morou, começou a transbordar em mim, e eu precisei quebrá-lo em pedacinhos de palavras e jogar pela janela toda minha matéria misturada a dele. O que eu não sabia é que ao fazer isso, as palavrinhas tomaram caminho até o artista lá de fora e eu passei a morar nele também. Não tão grande quanto ele mora em mim, mas o suficiente pra fazê-lo visitar-me e me convidar a conhecer sua morada real. Reciprocidade! Foi essa a coisa que eu desconhecia e que de repente, transformou o mundo todo (o externo e o interno) em livro, em filme de sessão da tarde, em champanhe de ano novo, em vida de verdade. O meu boneco de madeira tomou forma humana, uma forma tocável, falível e capaz de me amar de volta. Ele me reconhecia nas multidões e atravessava um mar de gente pra me abraçar, com um sorriso empolgado no rosto. Ele elogiava minhas roupas, meus poemas e minha lealdade, fazia piadas e dizia que éramos amigos. Eu virei coisa secreta na estante dele, e ele era o maior segredo já construído em madeira velha dentro de alguém. Então eu comecei a transbordar ainda mais, muito mais, exageradamente. E por não poder gritar ao mundo o que estava acontecendo, eu comecei a gritar pra ele. Tanto transbordei que virei mar e esqueci que humanos se afogam. E o meu boneco humano perdeu o ar, calou-se diante das minhas águas cristalinas. Ele me encheu de silêncio. Não o silêncio bom, o silêncio mau, o que transforma horas em dias, e semanas em meses. Eu penso que o sufoquei, e peço desculpas a quem me ouve, pois ainda não sei o final dessa fábula. Talvez eu seja a baleia que engoliu Pinocchio, talvez ele esteja por aí me preparando uma surpresa, peralta Pinocchio. Não sei dizer com qual tipo de material ele me construiu dentro dele e se ainda tenho vida na sua morada, não tenho mais controle do boneco desde que saiu de mim. Mas o que eu aprendi com as memórias fabricadas por mim e por ele é que ninguém é só madeira e ninguém é só humano. As pessoas existem do modo como nós as vemos, as dimensões se misturam, e reciprocidade não é lenda.

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