Coma induzido

Às vezes eu entendo os fanáticos religiosos. Deve ser muito mais fácil acreditar que seguir as leis de Deus pode nos levar a algum lugar de paz, já que a lei dos homens não tem funcionado muito bem. Claro que sempre existem aqueles que não precisam e nem querem seguir lei nenhuma, os que se dividem entre rebeldes heróis e nocivos vilões.
Eu não sei se sou desses. Por mais que eu lute pela liberdade dos outros, eu mesma sempre precisei de ordem, de limites, de controle dos meus próprios impulsos autodestrutivos. E agora, sem coragem e sem conseguir encontrar ordem pra minha vida, eu adotei um comportamento contrário ao da maioria que perde o sono quando se vê diante de empecilhos. Eu durmo. Eu me forço a dormir mais do que o necessário. Dormir não fere o corpo, distrai da fome, cria fantasias na mente, elimina o tempo, anula a vida. Dormir é tudo que me resta fazer de graça. É a única coisa que eu pareço ter competência pra realizar sem a aprovação dos outros. Eu fico ali, desligada. Não gasto luz, nem água, nem energia vital. Não colaboro com o desmatamento, nem com a camada de ozônio, não faço bem nem mal. É o máximo que eu posso chegar da minha tão sonhada não-existência. Não atrapalho ninguém, não causo comoção por meus dramas patéticos, não marco compromissos nem sinto saudades dos outros, não corro risco de engasgar com a água e vir a óbito. Não existe egoísmo ou altruísmo no ato de dormir. É simplesmente a melhor coisa que uma pessoa em desserviço pode fazer por si mesma e pela sociedade.
Acordar é horrível. É como voltar de um afogamento. Eu não acordo tranquila. Eu acordo confusa, com o coração aceleradíssimo, cabeça a mil, ansiedade pra checar notificações mesmo sabendo que raramente alguma delas será importante ou que algum email na minha caixa de entrada é a resposta de um emprego maravilhoso capaz de me dar uma carreira. Que carreira? Eu vou fazer carreira dormindo. Boa parte do que a gente vive é só imaginação, por que não a parte inteira? Quando Deus resolver me contar o motivo de ter me colocado aqui e se eu estou fazendo o que é de Sua majestosa vontade, eu terei prazer em acordar. Por enquanto, boa noite e bons sonhos.

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PI – Panorâmica insana: misto de sensações

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Foto: João Caldas.

É meio difícil eu sair de alguma peça de teatro sem sentir nada, mas sempre existem algumas (poucas) que me fazem experimentar absolutamente todas as sensações possíveis num prazo de uma hora e meia.

Eu não sabia o que esperar de Panorâmica Insana, mas pelas fotos e o press release eu imaginava que seria algo impactante. E foi! Desde o exato começo, enquanto o público vai ocupando as cadeiras e os atores nos entregam incontáveis personagens só por seus nomes, vestimentas e números de documento. Ali a sensação de observar as roupas jogadas no chão é de que cada pedaço de tecido conta uma história inteira. Assim você logo entende que o que está prestes a assistir não é uma peça com começo, meio e fim, mas sim um emaranhado de narrativas. Fora que ouvir os nomes junto aos números de identificação nos dá a sensação de que todos nós não passamos de combinações de dígitos e estatísticas.

Quando começam os monólogos sobre loucura, família, instituições e a cena de um velho que observa a vizinhança, o estranhamento é grande. Chega a causar certo incômodo mesmo, mas também fascínio sobre o que estão falando, sobre como aquelas personagens chegaram àquele ponto, qual é o passado e qual é o futuro delas. Não temos essas respostas. Não temos nenhuma resposta, só várias e várias questões. Por alguns momentos parece que estamos assistindo às nossas próprias memórias ou a algum sonho lúdico onde infância, adolescência, descobertas, decepções e mortes se misturam. É forte! Num minuto estamos rindo dos estereótipos e das nossas próprias ambições vazias, pra no minuto seguinte estarmos chorando frustrações, abusos, preconceitos e o peso de tentar carregar tantas vidas interrompidas. Dói! Mas é uma dor necessária, é aquela que nos faz pensar sobre nós mesmos e sobre o outro, que nos faz crescer um pouquinho.

O texto é tão genial e instigante que me manteve presa durante todo o tempo. Questionar a existência de Deus, do amor e até mesmo da sanidade humana pra uma plateia de gerações tão variadas é certamente ousado e corajoso. Sem falar da entrega emocional e física dos atores também, uau! Eles correm de um lado para o outro do palco o tempo inteiro, dançam, trocam de figurino, se exercitam, se jogam no chão, gritam, choram, é incrível! O espaço onde a peça acontece é tão importante quanto, por se tratar de um teatro em reforma, por nos remeter a construções, falhas, dúvidas, toda a arquitetura complexa e inacabada da existência humana. E por mais simples e bagunçado que pareça, existe uma ordem na posição daquelas roupas que nos faz perguntar como os atores conseguem localizar exatamente o que estão procurando e de forma tão rápida. Mistérios da contra-regragem.

Em resumo a peça é sobre a vida. E a vida não é nada óbvia. A vida não tem uma sequência narrativa que faça sentido, e nem os seres humanos têm clara consciência do que estão fazendo enquanto existem. Nascer, morrer. Dormir, acordar. Somos NADA e seremos ainda maiores NADAS depois que morrermos. Tá, eu sei que parece mórbido, mas no meio disso tudo existem as celebrações de ano novo, o carnaval, algumas viagens e outros momentos que dão prazer em viver; existe sempre uma peça de teatro que vale a pena assistir, existe quem faz da arte uma tentativa de mudança social.

Vão ver Panorâmica Insana enquanto ainda dá tempo!

Informações sobre a peça, clique aqui.

O quarto

2018

Ela entra no quarto. Eu estou triste. Ela diz “relaxa, vai ficar tudo bem” e sai. Ela entra de novo. Eu ainda estou triste. Ela diz “qual dessas minhas fotos está melhor?”. Eu olho para o celular, todas as fotos são iguais, eu escolho qualquer uma. Ela quer uma justificativa pela minha escolha aleatória. Eu dou. Eu continuo triste. Ela sai.

Ela posta a foto com alguma legenda motivacional. Toda manhã ela posta uma mensagem de bom dia aos seguidores. Ela briga comigo se eu não dou like. Eu dou. Eu faço tudo que ela quiser pra ela ficar feliz. Mas eu ainda estou triste.

2015

Ela entra no quarto. Eu estou apagada. Ela troca meu pijama. Eu vejo flashes de ambulância e cadeira de rodas.  Ela não sabe que eu tomei o vidro inteiro de remédios pra dormir. Eu volto ao normal. Ela deixa pra lá.

2013

Ela entra no quarto. Eu estou sangrando. Ela finge que não vê. Ela diz que vou enlouquecê-la. Eu corro até o quintal. Ela corre até o quarto dela. Eu corro de volta pro meu. Ninguém diz uma palavra. Eu choro até dormir.

2001

Ela entra no quarto. Eu estou triste. Ela briga comigo porque perdi o brinco na pia. Eu peço desculpas. Ela pergunta o que eu quero para o meu aniversário de dez anos. Eu digo que quero um abraço. Ela chora.

2019

Ela entra no quarto. Eu não estou respirando. Ela aproveita a luz pra tirar mais fotos. Eu não me mexo. Ela sai. Eu nunca mais. Ela procura outra pessoa pra perguntar se as fotos estão boas. Eu não estou mais triste.

Pós-Pós-F

Fernanda, eu tentei fazer uma resenha do seu livro, mas não me considero tão apta. Entretanto, por desejar falar sobre ele e sobre você, resolvi escrever em formato de carta, assim fica com menos pegada de crítica e mais de diálogo. A minha vontade após lê-lo era de conversar com você, porque acredito que temos muito a aprender uma com a outra ou pelo menos questionar uma a outra.

Antes de qualquer coisa, eu queria te agradecer pela coragem de publicar um livro tão aberto e franco. Sério. Eu sei que não é fácil expor nossos pensamentos sem a máscara de personagens fictícios. Mas eu sempre te amei por esse motivo mesmo. Pela coragem de falar. E eu sempre me encontrei nas suas frases; por isso, devo admitir que dessa vez foi meio chocante te ler e não concordar com tudo. Foi quase um susto, mas um susto ótimo! Eu adoro discordar de pessoas que eu admiro, porque me faz realmente perceber quem eu sou e o quanto ainda tenho a aprender e a compartilhar com o mundo. E não se preocupe, esse texto não tem a função de julgar nada do que você disse, nem apontar erros (quem sou eu pra isso?) ou dizer que vou parar de te seguir apenas porque pensamos diferente, nada disso. É só porque eu acho estranho dizer que não concordo e não explicar exatamente com o quê.

Você começa o livro dizendo que não é nenhuma especialista, e acredito que essa seja a frase principal do texto inteiro, afinal te dá o direito de falar sem precisar se basear em dados ou pesquisa, apenas expondo a sua opinião e vivência. Eu também sou assim. Aliás, não confio em quem se diz especialista em algum assunto, mesmo que hoje exista muita discussão em torno do “lugar de fala”, eu nunca fui capaz de encontrar exatamente o meu lugar de fala no mapa, então saio falando e ouvindo sobre todos os assuntos, me permitindo errar, consertar e principalmente esclarecer minhas próprias dúvidas.

A questão principal do livro (pelo menos para mim) e desse texto é o feminismo. Eu sei, é uma palavra que dá vontade de fugir, porque ela automaticamente nos rotula em diversos modelos estranhos e desconexos.  É uma palavra que eu evitei durante muito tempo e que julguei sim e que não quis pra mim. Até várias coisas acontecerem. E eu lembro que passei a formular o meu próprio conceito de feminismo depois da comoção ao redor do caso daquela menina que foi estuprada por 33 homens. Foi uma ocasião em que o assunto principal na minha roda de amigas se tornou o assédio, o medo e como poderíamos parar de nos tratar como inimigas a fim de nos protegermos numa sociedade que se recusa a nos ouvir e acreditar em nós. Era inadmissível pra mim que as pessoas apontassem a menina como principal culpada pela violência que sofreu. Tá, eu vou pegar leve, juro que não te chamei até aqui pra militar ou te fazer mudar de opinião. Mas eu queria que você pudesse se sentir acolhida por nós, mulheres, eu queria poder te dar um abraço sincero. Eu sei que crescemos ouvindo músicas que nos jogaram umas contra as outras (beijos pra Pink e sua Stupid Girls), vimos novela torcendo por vilãs e mocinhas se espancarem num banheiro, andamos na rua comentando a vulgaridade do traje da colega. Essas coisas são as coisas que a gente não quer mais (pelo menos não fora da ficção), entende? São hábitos que eu tenho mudado e visto mulheres mais novas e mais velhas mudando também. O machismo está impregnado em nós sim, mas o feminismo não é uma palavra antônima a ele, e sim uma palavra que prega a união entre as mulheres e a igualdade de direitos entre todos os gêneros. Apenas. O feminismo que eu pratico é o que defende o direito da mulher que quer trabalhar fora e da que quer ser dona de casa, a liberdade de escolher o que a faz feliz sem ser condenada por isso. Não é sobre concordarmos, sonharmos as mesmas coisas e acreditarmos nas mesmas ilusões, é sobre dizer “querida, tudo bem, eu te respeito e te estendo a mão caso você precise, você não está sozinha”.  Então, Fê, era isso que eu queria te dizer principalmente. Da mesma forma que eu sou acolhida por mulheres incríveis quando preciso, saiba que eu e toda uma geração estamos dispostas a te abraçar se você eventualmente precisar, a te impulsionar pra frente sempre e a brigar ao seu lado.  É esse movimento que anda acontecendo em Hollywood, nas ruas de São Paulo, nos saraus feministas da periferia, um verdadeiro clima de mudança e de vozes sendo ouvidas. E eu concordo muito com você quando diz que a população toda precisa ser reeducada, tanto homens quanto mulheres, e por enquanto é esse o modo que eu tenho encontrado pra me reeducar junto de outras pessoas interessadas. A mulher que olha para a outra com respeito, que entende sua luta e que reconhece seus próprios defeitos e privilégios.

Você também acaba falando um pouco indiretamente sobre transexualidade no livro. Sobre experimentarmos nossos corpos antes de mudarmos de gênero. Bem, esse é um assunto que eu pensei bastante sobre falar ou não, porque apesar de ter amigos transexuais eu não sou a pessoa perfeita para explicar como eles se sentem além do que eu observo. Nesse caso, eu surgi com uma comparação extremamente chula, mas que me parece fazer sentido. Sabe como as pessoas modificam seus corpos colocando chifres na cabeça, tatuando os olhos, aplicando bolas embaixo da pele do braço e furando o corpo inteiro? Elas fazem isso livremente, sem precisar da opinião de um médico e sem ter que explicar seus motivos, pois essas coisas as deixam felizes e mais confortáveis com elas mesmas. Qual seria o problema então de uma pessoa trocar de gênero se isso é a única coisa que vai lhe dar paz e lhe fazer feliz? Pessoas trans não estão no meio do caminho entre um gênero e outro, elas sabem com o que se identificam e como querem se parecer. E por mais que eu também acredite na escala de gênero e que todos nós vagamos entre o feminino e o masculino, eu compreendo que cada pessoa se sinta de uma forma com relação à própria identidade. Eu sei que o seu texto fala justamente sobre quebrar de uma vez por todas esses padrões de gênero, já que somos todos iguais. Só que ainda existe sim um conceito social do que é feminino e do que é masculino, e nem todos nós conseguimos vagar entre um ponto e outro. E com relação ao artigo, eu antes ficava bem incomodada de ter que pensar se uso “o” ou “a”, mas basta realmente perguntar como a pessoa prefere e tá tudo certo, é simples. Chega um momento em que você está andando com uma galera toda misturada e vestida com roupas malucas que nenhum de vocês ali se importa com artigos, isso é uma preocupação minúscula e muito raramente condenável. Somos todos pessoas tentando nosso melhor e sabemos muito bem quando alguém se refere a nós com dúvidas ou quando se refere a nós com ataques (digo nós, porque apesar de ser cis, sou da comunidade queer). E além disso, nenhum de nós é dono da verdade também, a própria comunidade é cheia de problemas, então não tenha medo de ser atacada por usar o, a, e, x ou qualquer letra que queira usar. Havendo respeito entre todos, o resto é uma questão de detalhes.

Existem ainda inúmeros assuntos no seu livro que me fizeram pensar, repensar, reler, entender e aceitar suas opiniões. E foi ótimo poder te conhecer um pouco mais e poder me conhecer um pouco mais através de você. Eu adorei ter ido ao lançamento e ter te ouvido falar sobre esses assuntos pessoalmente também. Toda vez que eu te encontro é muito doce, porque você tem uma vibe calma, delicada e muito receptiva (mesmo que por aí te descrevam como porra louca, eu não te enxergo assim). Espero que ainda possamos nos encontrar diversas vezes, falar dos seus filmes, da carreira da Madonna e de outros assuntos mais leves (vamos falar sobre como eu ainda fico meio chocada de você saber meu sobrenome). No final das contas, talvez a gente pense muito parecido sim, só que usamos palavras diferentes.

De quem muito te admira e sempre estará ao seu lado,

Giulianna Palumbo

Das coisas que aprendi nos discos

Eu comecei a limpar a casa aos nove anos. Não toda a casa, mas pelo menos a mobília de madeira escura. Eu e mamãe não saíamos aos sábados, porque essa era a nossa tarefa: garantir que não sobrasse pó em nenhum canto da sala principal; e para que o serviço não ficasse tão tedioso, às 11 da manhã, ela colocava MPB pra tocar. A gente tinha um aparelho preto em formato de caixa que rodava três CD’s ao mesmo tempo e isso era extremamente tecnológico. O repertório ia de É o Tchan a Barão Vermelho, passando por Kid Abelha e Marisa Monte, mas meus órgãos paralisavam quando tocava Elis Regina. É porque ela tinha essa música que falava sobre sermos como os nossos pais e, apesar de eu não entender completamente a letra, eu achava muito forte. Algo me arrepiava e, em meio a flanelas amarelas e o cheiro de lustra-móveis, eu sentia uma enorme vontade de chorar. Então, antes de chegar ao primeiro refrão, eu pulava pra faixa seguinte – porque mamãe sempre me ensinou a não demonstrar fragilidade e evitar tudo o que nos causa comoção.

Mais de uma década se passou até que eu ouvisse essa música outra vez e escolhesse prestar atenção na letra. Hoje eu entendo melhor sobre o medo inconsciente que me afligia na infância. Era pior do que lobisomens, Cuca e homem do saco; era medo de crescer, de sofrer, de repetir os erros dos meus pais. Deixar que a música tocasse era encarar uma premonição da qual eu tentava fugir e que, agora, aos 25 anos, já não me deixa escapar.

A verdade é que a gente leva tempo pra entender uma série de coisas que sempre estiveram ao alcance dos nossos olhos tapados com viseira. A primeira delas é que os nossos pais são pessoas e não apenas pais. A gente leva tempo pra enxergar seus defeitos e qualidades, pra reconhecer que herdamos várias de suas virtudes e imperfeições, e que o amor não é incondicional. Depois levamos tempo para perdoar e pedir perdão. Pra perceber que não podemos exigir aceitação absoluta se nós também não aceitamos seus padrões. Que muito se fala em respeitar os pais, mas quase nada se fala em respeitar os filhos, sendo que toda e qualquer relação depende dessa troca mútua.  A gente segue carregando feridas abertas – evidenciadas por letras de música – na esperança de que elas se fechem sozinhas. Ficamos em silêncio, torcendo pra que haja tempo de concluir os assuntos inacabados num domingo à tarde. E quando nos damos conta, a canção já entrou no refrão final e a gente ainda está tentando evitar fazer tudo igual.

Não existe sermão quando não existe intenção de ouvir, e das coisas que aprendi nos discos, a maior delas é que a música sempre vai se repetir sozinha se você não fizer nada pra que ela pare de tocar. Eu sei o quanto é difícil ouvir a mesma melodia de forma diferente do habitual (e aqui eu estou mesmo usando uma metáfora para falar sobre traumas), mas é a melhor coisa a fazer. Antes de tocar algo novo, tente ouvir seus discos com cuidado e, mesmo que haja arranhões, aceite e preserve nas gavetas a trilha sonora da sua vida.

A beleza está onde você a encontra

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Eu estou na casa dos vinte anos e tenho consciência da minha própria juventude. A pressão para que eu me case, inicie uma carreira de sucesso, seja e faça tudo o que esperam de uma mulher da minha idade só aumenta, porém eu ainda tenho o colágeno a meu favor e quando a pressão social se intensifica, a minha vaidade fala mais alto e eu me dou conta do tanto de tempo que me resta pra viver. A vantagem de crescer é conseguir assumir algum controle sobre quem somos e cada vez menos permitir que outras vozes falem mais alto do que a nossa própria voz interna. Mas existe algo que ainda me amedronta (talvez até mais do que morrer jovem): envelhecer.

Madonna apagou uma foto de dia das mães do seu próprio instagram depois de ter recebido uma enxurrada de críticas negativas a respeito de sua aparência. Na foto, ela se mostrava sem maquiagem e os comentários a acusaram de estar com o rosto desfigurado.  Que a toxicidade das mídias sociais é grave, todos nós sabemos, mas é realmente difícil ver Madonna recuar por alguma coisa. Depois de apagar a foto, ela postou outra, dessa vez maquiada, e, como esperado, recebeu elogios. Isso levanta novamente a discussão de como a aparência associada a nossa idade e aos produtos de maquiagem pode destruir o nosso emocional e tornar cruel a passagem do tempo.

Não é a primeira vez que a Madonna sofre algum preconceito por estar envelhecendo. Isso foi acontecendo aos poucos, a ponto de uns três anos atrás uma rádio se recusar a tocar uma música nova dela por “não ser música de gente jovem”. Se ela veste uma roupa mais ousada, “não tem mais idade pra isso”, se posa ao natural, “está horrorosa, velha, acabada”. Será que em algum momento alguma dessas pessoas parou pra pensar que envelhecer não é um processo voluntário? O tempo deixa marcas no corpo de todos nós, e é bastante absurdo que sejamos cobradAs (no feminino, porque homem não é cobrado por idade) para manter o rosto de vinte anos quando já vivemos sessenta. Até mesmo o nosso rostinho de vinte passa por algumas camadas de creme, protetor solar, base e pó pra não aparentar cansaço. É dificílimo se libertar completamente da indústria da beleza cosmética. E é bastante injusto que uma mãe famosa se veja obrigada a apagar uma foto com seus filhos por conta de suas marcas de expressão. Uma foto que deveria retratar justamente a beleza do amor materno, mas que só foi capaz de atrair olhares maliciosos obcecados por aparência.

A minha esperança (ainda que muito ingênua) é que até o meu tempo de chegar aos sessenta anos, nós possamos ser mais solidários uns com os outros e entender que passar pelo processo de envelhecimento não precisa ser tão cruel e sofrido. Que a maquiagem seja só um acessório, não algo essencial para que as mulheres se sintam bonitas. Que a gente consiga encontrar beleza na naturalidade de todas as fases da vida.

Verdade e desorgulho

Eu sempre vou saber. Não importa o que digam de mim, eu sempre vou saber quem sou. Eu sei o que eu fiz uma hora atrás. Eu sei o que eu não fiz, o que é pior. Estava muito tarde da noite, eu estava com medo. Sozinha. Último trem pra conseguir pegar o último ônibus. Uma travesti me parou na plataforma do metrô. E até dói continuar escrevendo. Ela disse “seus olhos são lindos”, sorrindo. Ela disse “eu não sou ladrão, eu sou mona”. Ela estava com comprimidos nas mãos e me pediu dinheiro pra comprar comida pra poder tomar os remédios. Remédios contra AIDS. Ela não teve vergonha ou medo de dizer que tinha AIDS mesmo tendo acabado de me conhecer. Eu estava voltando do bar. Eu estava pensando em como promover minhas amigas drags. Uma travesti me pediu ajuda. A porta do trem abriu. Eu entrei. Eu disse que não tinha dinheiro e desejei boa sorte. Ela me deu o olhar mais triste que eu nunca vou esquecer. Eu nunca vou esquecer. Eu entrei no trem já mortalmente arrependida. Meu medo da noite passou, porque eu estava com raiva de mim. E até torci pra que algo de ruim me acontecesse, torci pra ser punida. Torci pra perder o último ônibus e ter um motivo a mais pra chorar que não fosse a enorme vergonha que sinto agora. Torci pra ser abordada por bandidos. Torci pra virar o pé e me machucar. Torci pra depender de ajuda alheia e não ter. Eu andei os quatro quarteirões mais escuros da minha rua. Sozinha. Sem luz. Sem um pingo de medo, com raiva, ódio e consciência de quem eu sou. Melhor, de quem eu não sou. Eu não sou quem eu digo por aí. Eu não sou um décimo do que eu digo por aí. Ativista de sofá. Branca mimada, privilegiada, deitada na cama enquanto escreve, com dinheiro no bolso que podia ter salvado uma vida, uma noite, uma esperança. Não. Nunca mais eu vou chegar a pensar que sou alguém fazendo algo por outro. Hoje é dia do orgulho LGBT. HOJE! Hoje eu abandonei um dos nossos. Eu abandonei um dos nossos. Eu não quero nem as minhas próprias lágrimas, não quero a piedade de ninguém. Eu só quero que o mundo inteiro saiba a farsa que eu escondo. Nunca mais agradeçam, nunca mais celebrem minhas “ideias”. Eu abandonei um dos nossos.