Alfabetizada Criativa

Nem tão criativa assim…

Ela

Eu estava vendo alguns vídeos de dez anos atrás. Fotos também. E chorei. Uau, como eu chorei! Não de saudades ou de arrependimentos, não sei exatamente do quê. Eu acho que chorei de susto. De perceber o quanto não sobrou quase nada da menina que eu fui. Não sobrou o corpo magro e nem o cabelo virgem. Não sobrou ingenuidade e nem os sonhos da época. Não sobrou nada, além do sentimento mais forte que eu carregava pela pessoa mais importante que eu já tive. E tenho. Que sorte que tenho! E ela sabe que esse texto é pra ela, e sabe que se juntar todos os textos que fiz pra ela desde aquela época daria pra fazer uma coletânea de duas mil páginas. Ela vai ler esse quando voltar de viagem porque ela lê todos. Desde o primeiro do blog. Desde antes de ser blog, quando era fotolog, quando era conversa de MSN e bilhete de colégio. Caramba, isso não mudou. E eu mudei completamente! E ela mudou inteirinha! Nós não somos mais aquelas meninas dos vídeos. E é estranho perceber isso. Aquelas ali fariam de tudo pra não magoar uma a outra. E hoje em dia, eu acho que já não sou mais tão decente com ela. Eu já a magoei tantas vezes, decepcionei. Essa parte dói. E eu sei que ela já nem acredita quando eu repito que o que sinto não mudou. E talvez então seja essa o motivo do meu choro. Porque todo meu amor ainda é enorme, como um diamante que caiu no chão e não rachou. E vai ser sempre grande assim. E eu não saberia jamais viver sem ela. Sem a certeza de que nunca na vida terei uma conexão tão forte quanto a que nós temos. Sem as novidades dela que agora eu acompanho de longe. E tá tudo bem. Eu gosto de ver de longe e saber de perto. Eu quase não a vejo mais, mas a encontro todos os dias no meu pensamento. E quando eu digo “todos os dias”, eu quero realmente dizer todos os dias. Ela nunca sai de mim. Nunca. E eu choro de susto de perceber que tudo, absolutamente tudo pode mudar e VAI mudar. Daqui dez anos, eu não me parecerei em nada com quem sou hoje. Então me aproveito de mim. Do meu tempo. Mas caminho com a plena certeza de que o diamante que carrego com o rosto dela ainda vai estar lá. Seja perto ou seja longe. Todas as coisas que eu disse na adolescência eu ainda acredito. “Ela carrega um pedaço meu”, “ela é minha alma gêmea”, ela é todas as poesias que eu escrevi com o exagero de quem tem quinze anos e descobriu o quarto mundo. Ela vai voltar de viagem e vai ler esse texto e vai dizer “hihi que lindo, adorei”, e eu vou parar de chorar.

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Jogo de queimada

Já passou das quatro da madrugada. O mundo está muito louco lá fora. Tem uma tag no topo dos trending topics do Twitter atacando o Fantástico por ter falado sobre identidade de gênero e intolerância religiosa. Eu passei a semana inteira tentando desviar de comentários ignorantes, agressivos, mas foi impossível. Parece que está intoxicado. O mundo. As pessoas. Sei lá. Não existe mais um artigo que você possa ler ou uma live de instagram que você possa assistir sem se deparar com ataques de pessoas que odeiam o assunto tratado, que condenam à morte os que falam e os que concordam com aquilo. Qualquer que seja o tópico. Parece que o planeta virou de ponta-cabeça.

Eu adoraria dizer que estou blindada, mas não estou. Porque eu jamais ficaria do lado de quem ataca. Nem no jogo de queimada na escola eu conseguia atacar as pessoas. E só quem ataca tem armas. No jogo de queimada era a bola. Na internet são as palavras. Nas ruas, as armas pesadas, as pedras e tacos de beisebol. A gente que é atacado só procura o outro lado, o lado do amor. Da união. Enquanto os intolerantes gastam seu tempo pregando ódio, nós gastamos o nosso oferecendo elogios aos que fazem coisas boas, dançando batida pop, usando a ironia como autodefesa e procurando novos meios de exercermos nossa liberdade de existir.

Tá difícil. Existe um padrão. E você tem que ter todas as características daquele padrão pra ser considerado merecedor da sua própria existência, não pode ter uma a menos nem uma a mais. Os critérios são: homem, branco, cisgênero, heterossexual, de classe média A, com o corpo definido ou pelo menos bacana, com alguma das seguintes profissões: médico, advogado, funcionário público, engenheiro, político ou piloto de avião. De preferência casado (e aqui tem que ser com uma mulher branca que goste de cozinhar) e pai de dois filhos também homens cisgêneros heterossexuais. Isso! Se você cumpre todos esses requisitos, parabéns! A sua existência vale ouro. Se você não preenche tudo isso, então sinto muito, merece morrer. Não devia nem ter nascido, mas o aborto é ilegal, então você nasce só pra que o homem padrão possa se sentir superior e te perseguir.

Mas sabe, essa semana teve muito ódio sim. E também teve uma drag queen cantando na novela das nove. Teve essa mesma drag queen num programa de entretenimento dominical. Teve uma matéria enorme sobre drag queens num portal super famoso. Eu me apeguei às drag queens como se elas fossem unicórnios capazes de me salvar de uma matilha de cães ferozes. E acredito que agora é a hora de elas dominarem o mundo e escancararem todos os “anti-padrões” sociais em seus próprios corpos. Eu tô do lado delas tentando impedir que a bola do jogo de queimada acerte seus cílios postiços. Eu tô do lado das garotas, das que já entenderam que o melhor a fazer é se unir a outras garotas. Eu tô do lado da família que cultiva amor, não o sangue. Eu tô do lado de quem tá sendo atacado, e juro que tô tentando rebater essas bolas pra virarmos esse jogo.

Eu não existo

Eu não existo. Se fosse matéria, seria um livro sem leitor. Se fosse fruta, seria a que nunca foi colhida. Se fosse flor… eu nunca seria flor. Flor chama atenção. Eu não. Eu não existo. Mas se fosse flor, seria girassol, grande e amarelo, trocado pela rosa que é mais clássica e delicada.

Eu não existo. Se fosse homem seria ignorante, ignorado, ignóbio e invisível. Se fosse mulher seria o que já sou. Se fosse criança, a que não nasceu.

Eu não existo. E nem essas palavras. E nem esses pensamentos. E nem você. Desisto. Eu existo sim. Mas talvez eu só exista porque meus pais quiseram cumprir seu papel social de ter um filho. E depois o papel social de amar esse filho sem nunca explicar pra ele porque ele existe. Porque eles também não sabem.

É que não faz sentido existir. Não faz diferença. Não muda o mundo. Eu não consigo entender pra que vim. No fim das contas, a vida é só uma distração até que a morte nos encontre.

A bizarra teoria da “liberdade reversa”

liberty

Hoje foi dia de entrar no instagram e encontrar diversos posts de #SomosTodosMam em resposta à polêmica exibição do corpo nu que aconteceu diante de uma criança. Pelo menos no meu instagram havia vários posts defendendo o museu, afinal meu feed é basicamente composto por artistas “que mamam nas testas do governo e são sustentados por homens de bem”. Estou mesmo seguindo as pessoas certas, mas ao contrário de mim, vários usuários se tocaram que estavam seguindo as pessoas erradas, pois discordam totalmente da visão dos artistas e quiseram deixar isso bem claro nos comentários. E eu, ignorando a recomendação do ministério da saúde (recomendação que ainda não foi inventada, mas um dia será), decidi ler os tais comentários e passar nervoso, porque é pra isso que a gente paga a internet. Um deles, no entanto, me chamou muita atenção e me esclareceu a visão dessas pessoas:

bizar

Entenderam? O que eles estão reivindicando é apenas a liberdade de NÃO ir e vir. A liberdade de não comparecer a tal lugar, de não assistir tal canal de televisão, de não comprar tal produto e não votar em tal candidato. E para tanto, é necessário que se fechem os museus, que se proíba a exibição de programas de televisão, que se retirem produtos da prateleira e se anulem candidaturas. Pois, ao que parece, existe alguma lei na constituição (como que eu nunca reparei nessa lei?) que diz que você deve ir a todos os museus, que você deve induzir o seu filho a fazer algo que você considera absurdo, que você deve assistir casais gays nas novelas e se tornar homossexual pelo poder da visão,  que você deve fazer várias coisas que você não quer fazer. E eu aqui pensando que existia uma coisa chamada “ESCOLHA”. Poxa vida, eu não sabia que era obrigatório! Que tola que eu fui. Realmente, esses artistas querem destruir os olhos alheios. É muito triste ser obrigada a ir ao MAM toda semana e ver coisas que não quero ver. Onde está o meu direito de ficar em casa vendo Chaves?

Eu preciso que casais gays parem de se beijar na rua para que meu filho não saiba que eles existem. Eu preciso que as mulheres parem de usar saias curtas para que eu não seja obrigado a controlar meus instintos. Preciso que parem de chamar de “arte” uma coisa que levanta questões sociais e tabus “CRIMINOSOS”. Eu preciso ter a liberdade de agredir todo mundo que pensa diferente de mim. Eu preciso doutrinar as pessoas de acordo com as minhas crenças, afinal, EU sou uma pessoa livre, OS OUTROS não! Você não pode me impedir de te censurar, pois isso é censura!

BI-ZAR-RO.

Que pena que uma jovem tão promissora como eu fui manipulada pela Rede Globo a vida inteira e, hoje em dia, acredito e defendo a liberdade de expressão e a liberdade de NÃO ver o que você não quer ver sem impedir que outros vejam essa mesma coisa que você se recusa. Meu futuro está arruinadocensurado. Desculpa ter feito seus olhos lerem esse texto.

De uns tempos pra cá

De uns tempos pra cá, eu peguei uma mania horrorosa de falar “de uns tempos pra cá”, e outra mania horrorosa de pensar que eu deveria mudar umas coisas na sociedade. Será que não é mais fácil se eu só dormir e deixar pra lá esse lance de ser criativo? Esse lance de manifestações, de ativismo, de boate, de comida saudável, de post em instagram. Esses lances todos aí que me provam importante, relevante ou sei lá o que mais. Também não é como se eu tivesse 20 milhões de seguidores, e os poucos que eu tenho não se importam muito se eu tô em manifesto ou debaixo das cobertas. É uma relevância meio falsa. E eu ando com preguiça. De ser falsa. De ter que voltar a procurar emprego. Odeio atualizar portfólio. O capitalismo não faz o menor sentido, mas eu sou sua escrava e me consolo comprando roupas novas, indo em boates drags e gritando “QUE LINDA, PISA MENOS”. O tempo está passando e eu estou sem rumo. E de uns tempos pra cá, tenho me achado uma boboca. De uns tempos pra cá… Nem sei quantos tempos. Mas cá estou. Olhando para os travesseiros e pensando se não é melhor dormir até perder de vez os sentidos e os sentimentos.

Pra vocês dois. Duas. Ou três.

Essa é sobre vocês dois. Ou duas. Ou três talvez. É sobre vocês, e eu não vou deixar vocês saberem, porque não precisa. Essa é sobre amor.

Eu pensava que se eu parasse de sofrer por amor, eu nunca mais teria o que escrever. E por mais que eu diga que o ato da escrita é um karma, secretamente, eu não quero parar. Então eu mirava exatamente ali, naquela relação que eu pensava que jamais seria possível, aquela que eu sabia que me doeria, e como se ela fosse um precipício, eu me jogava. E da minha dor, nasciam flores alfabéticas, nasciam pétalas de cor vermelho sangue. Toda aquela tragédia romântica que fica muito bonita em texto.

Penso que isso se chama auto-sabotagem. Sofrer em nome da arte. Mártir! É burrice.

Então vocês chegaram. Um de cada vez. E vocês nem se conhecem. E vocês pouco me conhecem. Mas foram vocês que me deram a flor mais linda que eu estou guardando em mim. Que nem aquela florzinha do Pequeno Príncipe. Uma flor que não precisa desabrochar pra ser capaz de brotar em palavras. Uma flor sem nenhum espinho, que não dói nem um pouquinho, e que fica aqui preenchendo um espaço enorme no meu peito-jardim.

Pois é, eu estou romântica. Porque estou mesmo apaixonada. E não é aquela paixão que vocês pensam que é, aquela humana. É a dos anjos. É a pura e generosa. A que oferece amor sem exigir em troca. A paixão que ama amar e que se sustenta de si própria. Veja o que vocês me deram! Vocês que justamente agora estão sofrendo por amores de precipício. Quisera eu ser capaz de arrancar qualquer flor-dor que lhes aflige. Quisera eu poder preencher seus peitos-jardim. Mas gosto de acreditar que colaboro um bocadinho com a plantação.

Amores, amoras, os teus talentos me são acalanto. As tuas palavras me amparam. E as tuas almas, de cores tão claras e brilhantes, iluminam a minha. Não há nada em mim que seja mais bonito que os teus pedaços.

Amo-vos. Amo vocês. Dois, duas ou três.

Como salvar a família tradicional

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Essa é minha carta aberta à família tradicional. E é de amor, eu juro.

Sei que vocês raramente estão interessados em ouvir, por isso, eu vou começar dizendo que os entendo. Sério, eu realmente entendo o que vocês estão tentando fazer pra “proteger” os filhos de vocês, a moral, os bons costumes, o tradicionalismo pelo qual vocês tanto zelam.

Eu conheço direitinho os métodos, os sonhos e os segredos por trás dessa luta pelos “direitos tradicionais”. Afinal, vocês já estavam no comando da sociedade há mais tempo, vocês que inventaram o casamento, a família, os porta-retratos com todo mundo sorrindo. Vocês tiveram (e ainda têm) um enorme trabalho pra manter intacta a fachada de felicidade, e simplesmente não é aceitável que homossexuais, aqueles seres estranhos e coloridos que não se reproduzem, saiam por aí estampando amor e alegria, e pregando liberdade de expressão como se isso fosse normal e natural. Já não basta as feministas querendo acabar com o casamento?

Que ousadia! Que nojeira! Que sociedade doente exibindo e incentivando esse tipo de perversão nas escolas, nas ruas, na televisão!

Eu fui criada pela clássica família tradicional. Bem clássica mesmo! Meu pai fez tudo o que disseram que ele deveria fazer em prol da instituição familiar. Ele me manteve em casa, protegida, cercada, sem poder dormir nas amiguinhas, sem poder usar saia, sem falar com meninos, sem conhecer as crianças da rua que só falavam comigo quando a bola delas caía no meu quintal. Minha mãe me ensinou a varrer o chão desde pequena, me comprou um jogo de panelinhas e até me deixava pôr comida de verdade nelas. Eu fui uma criança que não aprendeu a andar de bicicleta, a nadar, nem a se defender de nada, porque eu simplesmente não fui exposta a perigo nenhum. E eu sei que existem milhares de famílias assim. E eu sei que elas mesmas se perguntam o que fizeram de errado quando o filho não é exatamente quem elas gostariam que fosse. Querem saber? Porque eu tenho a resposta.

O que destrói a família tradicional é o que destrói qualquer ser humano. A falta de liberdade individual. A esposa que não pode, em hipótese alguma, sair sem o marido. O filho que não tem voz dentro de casa, que só deve obediência, que não consegue se sentir amado sem agradar os pais. Não é a televisão. Não é a escola. Não é a rua. É a própria noção equivocada de amor que se aprende no lar. Um amor que prende, que amarra, que molda e que machuca. Então, quando se olha pra fora e se vê seres livres, que amam sem exigir padrões, que se apoiam, que se ajudam, e que vestem e falam o que querem, obviamente surge o sentimento de ódio. E então o ser enclausurado os considera doentes, pois eles têm tudo aquilo o que ele não tem: liberdade. De espírito. De voz. De personalidade. E principalmente, de corpo. São donos dos próprios desejos, das próprias vontades, da própria matéria. Coisa que o enclausurado jamais será, pois está amarrado.

Por isso eu reafirmo que entendo. Eu entendo o que meu pai tentou fazer comigo, e entendo o que vários pais tentam fazer com seus filhos. Mas estão olhando para fora ao invés de olhar para dentro, e é aí que erram. Se você diz que ama seu filho incondicionalmente, então por que impõe a ele diversas condições para ser amado? Por que ensina pra ele um amor extremamente restrito a certas características físicas e emocionais? Percebe que o problema não é ele e não são os outros, é você? Tratamento psicológico todos nós precisamos. Porque eu sei que é difícil. Eu sei que não é da noite para o dia que você vai acordar aprendendo a amar as diferenças, mas deveriam ter lhe dito que você tem métodos de aprender, melhorar e evoluir como ser humano. E o método que eu aconselharia é justamente a convivência. É você abrir espaço na sua vida para pessoas de todos os tipos e perceber que a “diferença” é um mito, e que elas são exatamente iguais a você. Com dias bons, ruins, tristezas, alegrias, e dívidas de cartão de crédito.

Isso é a minha tentativa de alertar a família tradicional que tanto preza por si própria. Salvem-se mudando seus métodos! Permitam-se amar de verdade e não só de fachada. Aprendam com aqueles que já sofreram com a repressão que vocês colocam sobre si próprios, e que podem lhes mostrar o verdadeiro caminho do amor real e da liberdade individual. E principalmente, revejam o conceito de “família” e as novas e belas formas em que essa palavra se encaixa.

Doente é aquele que limita o amor. E se você entende isso, lute! Não só diga “eu apoio, eu respeito”, LUTE mesmo! Encontre métodos de ser inclusivo, e de apoiar quem tem a coragem de ser livre numa sociedade amarrada.

Querida Lorelay

Eu já te escrevi um texto que você ignorou, e te entreguei uma carta que você nunca respondeu. Não tem problema. Eu sei que você já deve estar bem de saco cheio de mim, mas eu queria muito conversar, e como não posso, vou deixar isso aqui perdido nos arquivos do blog.

Sabe como você sente orgulho do seu livro? Eu também sinto. Do seu. Do conto que você escreveu. Da sua preocupação em contar uma história de fantasia com personagens tão reais. Sabe o seu canal? Eu curto. Adoro o jeito como você tenta explicar pras pessoas sobre os assuntos que você domina e que são tão necessários de serem abordados. Adoro seus vídeos bêbada também.

E sabe eu? Não. De mim você não sabe quase nada além do fato de que eu fico meio nervosa pra pedir foto. Odeio pedir foto aliás, só faço quando a pessoa realmente é importante pra mim. Mas você com certeza pensa que eu amo caçar celebridades e que tenho algum interesse obscuro em você, obsessivo ou coisa do tipo. Nem posso culpá-la, eu devo ter agido de forma estranha as vezes em que nos encontramos. E meu texto e minha carta deviam mesmo estar muito ruins. Eu apaguei o texto inclusive, pena que não posso pegar de volta a carta. Mas tudo  bem. Essa vergonha eu supero.

O que eu queria te dizer é que eu escrevi um livro. Um livro que você com certeza não quer saber que eu escrevi, mas que me faz ter uma enorme vontade de te pedir pra ler antes de publicar. Um livro que eu fiz com todo o amor que tenho pela arte Drag, mas que ainda me assusta e me tira o sono em preocupação. Eu tenho medo, um medo forte e real de ser uma literatura ruim, e não importa o quanto a minha escritora favorita diga que eu sou boa, ela não me convence. Eu preciso ouvir de você dessa vez, e odeio que eu tenha te feito tão importante assim.

Eu odeio que eu esteja agora mesmo olhando para o seu livro com a sua dedicatória e pensando que você pode gostar do meu também. E pensando que não, que você nunca vai gostar, e que nem sequer vai ler. Nem quando eu te contar que o protagonista chama Danilo porque foi o meu pequeno jeito de te homenagear. Você vai ignorar. E eu vou continuar dizendo que não tem problema. Porque não tem mesmo, eu não preciso que alguém goste de mim pra que eu goste da pessoa, e independente de você ler ou não, eu continuarei adorando seu trabalho.

É que eu tô frustrada, Lorelay. Eu tô assustada e com medo, por ser a primeira vez que eu realmente me posiciono sobre alguma coisa. Eu tô olhando pro seu livro e pensando “ela fez e fez muito bem, eu posso fazer também”. Mas talvez eu seja só uma menina muito maluca, que deveria encontrar no mapa o seu lugar de fala e ficar lá caladinha. Se você soubesse o quanto eu sou ruim em geografia…

O livro tá pronto, e às vezes eu penso que está lindo. Mas tá dificílimo conviver com a pressa de que esse material chegue até você, e com certeza, depois que eu enviar eu nunca mais vou dormir até colocar na cabeça que não tem problema se você não gostar (nunca antes eu precisei desse nível de aceitação). Eu tenho medo de divulgar algo que jamais deveria ser lido por ninguém. Algo desprezível. E se você me rejeitar outra vez, eu vou ter certeza que está horrível. Mas sem pressão!

Lorelay, que bom escrever isso sabendo que você nunca vai ler, assim eu posso te contar outras bobagens que não te interessam. Sabe por que eu não tenho tanta vontade de ser Drag? Porque desde os quinze anos eu tinha uma personagem líder de torcida, meio alter ego, e só posso conceber ser Drag caso eu a montasse, porém o nome dela era Lorelei Lee (minha personagem favorita da Marilyn). E eu não vou montar outra Drag chamada Lorelei. Seria ridiculo.

Veja que curioso: falar com você sem propriamente falar com você já me deixou um pouco aliviada. Escrever é a terapia mais barata que existe.

Vou tentar me concentrar em não depender da sua opinião, pois eu sei que você odiaria saber que eu dependo tanto assim, e me mandaria parar de ser louca.

E já que é pra encerrar uma carta que nunca chegará ao destinatário, eu vou fazer da forma mais patética e retardada possível: meu nome é Lorelei Lee e é nessa que eu vou.

 

Como ser você mesmo?

Você sabe ser você? Você já teve a impressão de que se trata como uma piada, muito mais do que os outros te tratam? Você se dá mérito suficiente?

Se nós somos uma soma de influências, então como que eu sou eu e não sou a Madonna? Por que é que parece que se eu não ajo como a Madonna, então não está certo? Eu nem quero ser a Madonna. Ou quero? O que eu quero ser quando crescer? Eu quero ser eu. Mas saberia eu ser eu?

Quantos por cento de você, você realmente é? Quantos por cento de vontades são cem por cento suas e não impostas sobre você? Você quer mesmo ter o emprego que tá procurando? Você é capaz de se imaginar daqui dez anos, dez meses, dez dias? Quanto que dá pra confiar no que dizem sobre você? Quanto que dá pra confiar no que você pensa sobre você?

Como ser você mesmo? É sério. Como que faz? Onde é que procura? Quando que eu vou dizer pra mim mesma que sou incrível ao invés de só dizer para os outros? Quando que eu vou acreditar que eles me dizem a verdade? Por que parece que sou tão pequena toda vez que considero que estou sendo eu?

Vocês estão bem? Vocês que eu não sei quem são. Vocês que eu não sei se leem. Vocês que na verdade sou eu lendo e me relendo outra vez. Estamos bem? Tá tudo solitário.

Lov

Eu tenho pena de quem pensa que precisa ter pena de mim. Eu tenho pena de quem acredita que o único tipo de amor válido seja o romântico. De preferência, o romântico padrão. Que vida triste deve ter a pessoa que vive em função de encontrar alguém que a ame da forma como ela acredita que deve ser amada. A pessoa que nem sequer sabe o tanto de amor que carrega dentro de si, e que pode lhe bastar. Eu tenho pena de quem não se disponibiliza a amar de verdade, a amar a diversidade, as pessoas que lhe são diferentes. Amar ao mundo, à vida, enquanto procura uma fantasia que pouco provavelmente vai realizar. O amor está em todo lugar. E eu tenho pena de quem não sabe procurar.