Caldo quente

Tomo o caldo quente sem soprar. “Você tem que soprar”, me dizem. “Não pode engolir sem antes esfriar!”. Eu ouço. E seguro nos lábios. Com cuidado.

Sinto o caldo quente nas bochechas. Guardo na boca enquanto arregalo os olhos e observo a janela. De um lado para o outro: carros, cachorros, pedintes. E o líquido.

O caldo queima a língua e eu não sei se o devolvo ao prato – agora misturado à minha matéria – ou se engulo e finjo que ele nunca existiu.

O caldo perde o gosto, e eu já quase sufoco e engasgo. “Engole esse caldo, menina, engole!”. Não posso. Devolvo ao prato. Tiro de mim. Faço estrago. “Desculpe”, murmuro entre os dentes queimados.

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Família de fontes

Baixei umas fontes novas pra aplicar nas capas dos livros. Uma delas estava em bold. Pensei “só tem bold, não tem normal?” e lembrei que ele diria que é errado usar a palavra “normal”, o certo é usar “comum”. Fui procurar a família da fonte no Google enquanto mastigava um brownie vegano, e antes dele eu tinha certo desprezo pela culinária vegana. Foi estranho não responder “como vai seu dia?” nos últimos três dias e é estranha a sensação de egoísmo e falta. Eu não entendo direito o que se passa, e nem como as pessoas passam por nós e deixam novas palavras e sabores culinários. No caso da família de fontes, se fala “regular” quando não é bold nem itálico. Eu acho que ele é bold e eu sou itálico. Bold negrita o texto, grita alto as palavras, enquanto itálico se curva, dificultando a leitura. Regular eu sei que não somos / fomos / seríamos; não tem tempo verbal para o que teve tão pouco tempo. Mas essa é a primeira vez que eu escrevo no plural, que não me importo em fazer sentido e que sonho em nunca ser lida.

Alaska

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Eu não ia escrever nenhum texto sobre a Alaska, mas acabei de assistir ao vídeo da noite em que ela perdeu a coroa pra Jinkx Monsoon e o coração bateu muito forte. Cena: Alaska sobe ao palco. Bêbada. Vestida como um saco de lixo. A maquiagem borrada de tanto chorar. Escolhe cantar “Don’t cry out loud” e “The winner takes it all”. Ao final da apresentação, ela se joga no chão e é arrastada como um amontoado de lixo recolhido por lixeiros. Alaska não sabe perder. Não sabe fingir que está bem com a própria derrota. E dá pra sentir sua agonia e decepção consigo mesma enquanto ela se expõe ao vexame. Alaska, ali, se torna minha heroína.

ad3eab966662bff61eef3e8f4d651eaaEu não torci para ela quando assisti sua temporada. Eu já tinha ouvido falar de seu nome inúmeras vezes, e por ela ser tão famosa, eu depositei expectativas antes de conhecer sua história. Logo, me frustrei. A vencedora da temporada anterior foi Sharon Needles, namorada da Alaska. E se a Sharon era tão foda, e Alaska era mais famosa, eu esperava que Alaska fosse triplamente mais incrível que a Sharon. Coisa que a própria tentou ser. Ela não se cobrou pra ser a melhor versão de si mesma, e isso eu percebi quando revi a temporada, ela se cobrou pra ser tão boa quanto a Sharon. Ela caiu na nossa eterna armadilha de nos comparar a quem amamos e admiramos. Nossa eterna luta pra provar que merecemos tanto quanto o outro. Aquela era Alaska Thunderfuck: uma pessoa doce repleta de amarguras e cobranças consigo mesma, brigando pela coroa do seu programa favorito. Porque não bastava ser participante de Drag Race, ela também era fã número um. Inscreveu-se para todas as temporadas, e ao entrar justamente após a namorada ter vencido, teve seu mérito automaticamente arrancado. “Alaska só tá lá, porque a Sharon a colocou lá”.

dcaf0a1cc60308eb5dbdabb325237f02Eu não achava que Alaska merecia ganhar. RuPaul também não achou. Então ela perdeu. Então ela se apresentou vestida como saco de lixo. Deve ter sido a pior noite da vida dela. Ou uma das. Porque um tempo depois, Alaska perdeu também o relacionamento com Sharon, coisa que ambas descreviam como a mais importante de suas vidas. Diz-se que era um relacionamento abusivo. As duas tinham problemas com bebida. Diz-se que houve traição, que houve agressão física. E eu assisti a todos os vídeos das duas juntas (porque sou obcecada pelos amores alheios), e eu sofri ao perceber que o sentimento entre elas era enorme, mas extremamente tóxico. Sharon era uma nova ganhadora que durante toda a vida sentiu-se perdedora. Seu recente sucesso e a inédita sensação de ser querida a tornaram um tanto imponente. Sharon precisava que tudo fosse sobre ela. Não tinha espaço para Alaska, e o fato de esta ter perdido a competição só “provava” que não era merecedora da mesma atenção.

7b0e3f4e0a00aaa49fa7ff1bba091cf1As disputas de ego cresceram e o rompimento foi inevitável. Então, distante de Sharon, Alaska pôde focar em sua saúde física e psíquica. Parou de beber. Compôs canções sobre o término e canções pop cativantes. Encontrou sua própria identidade e aprendeu a ser ela mesma. A nova, criativa e querida Alaska finalmente se mostrou por completo. Seu sucesso transcendeu Drag Race, mas ainda tinha algo faltando. A coroa.

1f01b130bb1456a6337598a88fbca769Três anos depois de ter encarado a derrota mais amarga que já experimentou, ela estava pronta para voltar ao jogo, e logo no primeiro episódio de Drag Race – All Stars, surge uma Alaska completamente diferente, segura de si, determinada e focada em vencer. Ainda em trajes de saco de lixo, como se fosse uma sequência de sua trajetória. E então ela jogou, e jogou forte! E novamente, eu não torci a seu favor. Ela ganhava todos os desafios, ela eliminava as queens mais queridas do público, isso era irritante! E em seu único deslize, a antiga Alaska descompensada surgiu diante das câmeras novamente, implorando pra não ser eliminada, oferecendo dinheiro para permanecer na disputa. Dá aflição de assistir. Alaska quis aquela coroa com a mesma força de um ginasta olímpico que passa a vida toda treinando por uma medalha. E ali, sóbria, focada, sendo ela mesma, conseguiu. Venceu o programa! Ganhou a coroa, o dinheiro, e o ódio dos mais fanáticos que a atacariam nas redes sociais até que ela se tornasse a rainha das cobras. E mesmo essa situação de ódio gratuito Alaska soube reverter a seu favor. Se foi “cotada” ou não, ela teve seu mérito finalmente reconhecido.

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“Eu sou aquela que pega lixo e transforma em luxo”, ela diz. Mais do que isso, Alaska é um excelente exemplo de persistência e sobrevivência. E é por isso que ela tem sido a minha maior heroína nos últimos tempos. Alguém que sofreu pra encontrar a si mesma, que batalhou pra aprender a se amar de verdade, que teve coragem de abandonar um grande amor em prol de sua própria saúde e carreira. Alguém que lutou o quanto pôde e com todas as armas que tinha para conquistar o que para ela era o mais importante. Alguém que venceu e que continua vencendo todos os dias sem perder a doçura, a graça e a paixão pelo que faz.

Alaska provou que eu estava errada por não ter acreditado nela desde o início. E é isso que eu gostaria de, um dia, provar ao mundo também. Que eu valho a pena. E claro, quero ter a chance de encarar minhas derrotas vestida de saco de lixo, com a cara toda borrada de tanto chorar, cantando “The winner takes it all” para uma multidão.

ALAKSA

Alaska ❤

A morte das palavras

O motivo foi torpe sem entorpecentes.
E o criminoso não tinha antecedentes.
Porque ninguém tira a própria vida duas vezes.
Tira. Mas não completamente.

A arma utilizada tinha cor metalizada.
E suspeita-se de asfixia planejada.
Porque ninguém usa lápis em folha timbrada.
Usa. Mas sem pesar a mão borrada.

O remédio pra dormir deu soneto.
E abriu um invisível buraco no peito.
Porque ninguém mais confia em medicamento.
Confia. Sem esperar que faça efeito.

Foi brutal sem manchar o tapete de entrada.
E doloroso, não doloso, foi perder o tom da fala.
Violento ao lamento de quem encontrou o corpo na sala.
Foi letal, não literal. Foi morte literária.

Frutos. Tinta. LSD

As palavras apodrecem que nem frutos que caem maduros de uma árvore e não são colhidos. As palavras pesam, e pesam mais em tinta de caneta do que em dedos batendo nas teclas. Elas eram minhas pílulas contra ansiedade, mas eu tenho feito delas comprimidos de LSD para dividir com os amigos. Uns alucinam, outros se sentem mal, pra vários deles não tem efeito nenhum. Pra mim: delírio quase cortante. A sorte é que eu não brinco mais com navalhas.

As palavras agora causam outros transtornos. O do impostor. E até que demorou. Eu concordaria com qualquer um que dissesse que minha escrita não é tão boa quanto eu ando espalhando por aí. Na média. Dependendo de um décimo pra não cair em recuperação. É que antes não tinha que passar de ano. Agora tem. Até chegar na formatura. E eu nem sei quantos anos são necessários para graduação. Talvez infinitos.

As palavras andam geladas, e às vezes eu sinto falta de quando eram quentinhas. Eram só minhas. Imperfeitas, porque íntimas. E a cada dia que passa, mais elas se soltam de mim. Que nem os frutos que caem das árvores e ficam na terra até apodrecer. Que nem tinta de caneta. Que nem LSD.

Dezoito homens

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Desintegrar-se: quando lhe arrancam a integridade e de ti não sobra nada.

Tem dias que a gente não aguenta mais ser quem é. Hoje é um desses dias. É um dia que eu não aguento mais ser mulher. É um dia em que dezoito homens aprovaram uma PEC que obriga a mulher a ter um filho fruto de estupro. Dezoito homens gritam orgulhosos que são a favor da vida, sem ter a menor capacidade cognitiva e intelectual para perceberem que são a favor da morte. São “os homens que não amavam as mulheres” e que, com o poder em mãos, determinam que a mulher seja uma máquina de sexo pronta para procriar o filho de qualquer outro homem que quiser engravidá-la sem o consenso dela. São homens que me despertam ódio, o pior dos sentimentos humanos. São homens que nunca entenderão a dor de existir num corpo feminino. O medo. A sequência de traumas. A luta. A angústia. O castigo por simplesmente ter nascido.

Hoje eu não queria ser mulher. Não queria sentir essa impotência que estou sentindo, como se meu próprio corpo se desintegrasse de mim e ocupasse um espaço que minha alma não ocupa. Como se eu pudesse tocar meu rosto, mas ele não fosse meu. Como se nenhum pedaço de mim me pertencesse. Hoje eu pertenço a esses dezoito homens e ao que eles quiserem fazer de mim. Hoje eu sou fruto dessa pátria mãe gentil que pariu filhos que não queria e que agora assiste às crias matarem umas as outras.

O “bandido bom que é bandido morto” é exatamente o amanhã da vida que hoje está sendo defendida. A vida que não terá direito a dignidade, que nascerá do ventre pobre de uma mãe assustada e que, no futuro, encontrará esses mesmos dezoito homens dizendo que ele nunca deveria ter nascido. Salva-se agora, enquanto ainda nem é vida, para assassinar depois, quando já não se consegue mais salvar.

Tem dias que a gente cansa de ser quem é. Mulher.

Às Queens

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Plumas, tintas, lantejoulas,
Fios de cabelo sintético.
Cores, flores, aromas.
Perfeccionismo estético.

Elas se montam, remontam, desmontam
E os pronomes se perdem no ar da AR-TE.
Elas me mostram, renovam, demonstram
O sentido de existir em duas metades.

Elas são obras que Da Vinci não pintou
Porque não tinha os pincéis adequados.
Sempre dispostas a oferecer amor
Aos que desconhecem seu significado.

Elas são eclipses de estrelas
Nem sempre vistos a olho nu.
Brilham no escuro e, incertas do futuro,
Seguem quebrando seus próprios tabus.

Rainhas. Eternas.
Sorrisos. Gratidão.
Aplausos. Descobertas.
Amor. Renovação.

Elas são.